Nos últimos dias o euro atingiu o seu menor nível desde que a crise financeira internacional eclodiu em 2008, cotado um pouco abaixo de US$ 1,24. Não faltaram análises apontando a perda de terreno da moeda única como o primeiro sinal de que o status do euro como moeda de reserva internacional está ameaçado. Também não foram poupadas as críticas ao BCE e à sua dramática reviravolta no fim de semana em que foi anunciada a criação do “veículo de propósito especial”, dotado de volumosos recursos para assistir os países em crise. Que o resgate europeu, na ausência de um plano para resolver os problemas de endividamento dos países mais fragilizados, está ameaçado, é indubitável. Mas culpar a atuação do Banco Central Europeu por isso, acusando-no de ter se dobrado às demandas dos políticos, é uma forma excessivamente simplista de encarar um problema extremamente complexo.
Em uma entrevista bastante lúcida e equilibrada para a revista alemã Der Spiegel, Jean-Claude Trichet não deixou dúvidas sobre o que forçou o BCE a agir contrariamente ao que havia declarado apenas poucos dias antes, na entrevista coletiva que seguiu a última decisão de política monetária. Com a exacerbação do pânico e do contágio na semana que antecedeu o anúncio do resgate, devido, principalmente, à letargia das autoridades europeias, os mercados interbancários europeus travaram naquela sexta-feira fatídica, dia 7 de maio, como ocorreu na época da quebra do banco Lehman Brothers. Diante da ameaça de que a paralisia continuasse e se alastrasse para os mercados de crédito na semana seguinte, a autoridade monetária não teve outra alternativa que a de anunciar a compra dos títulos ques estavam entupindo os canais de liquidez. Embora a divulgação das novas medidas do BCE tenham sido feitas junto com a criação do “veículo de propósito especial”, Trichet frisou que a decisão não foi tomada por pressão dos governantes. De fato, como enfatizou o presidente do BCE, a ação foi coerente com o que o BCE fez em 2008 para destravar os mercados interbancários. Na época, a autoridade monetária europeia foi a primeira a disponibilizar vastos montantes de liquidez para as instituições financeiras sequiosas. Como muitos devem lembrar, o BCE foi bastante elogiado por isso.
É claro que a perspectiva de que o BCE continue a absorver os títulos dos países com inquestionáveis problemas de solvência enfraquece o euro se a instituição não conseguir esterilizar essas compras como intenciona, o que aumentaria a oferta de moeda e resultaria em pressões inflacionárias. Entretanto, o problema não é o que o BCE está fazendo e seus possíveis desdobramentos, e sim o que os governantes e políticos da zona do euro estão deixando de fazer. A aversão à reeestruturação das dívidas soberanas e a tentativa de resolver um gigantesco problema de estoques através de um ajuste dos fluxos tem resultado no que Mohamed El-Erian da PIMCO denominou, jocosamente, de “inércia ativa”. Os governos correm para anunciar medidas dramáticas de austeridade, numa tentativa desesperada de apaziguar os mercados, sem se dar conta de que essa atuação depõe contra a credibilidade do que pretendem.
Os estoques de dívida da Grécia, de Portugal e da Espanha, são grandes demais para que o problema possa ser resolvido com uma elevação dos fluxos, que é, de todo modo, duvidosa, já que as medidas fiscais propostas certamente aprofundarão a recessão nesses países. Tornou-se comum uma observação falaciosa, que argumenta serem Portugal e Espanha fundamentalmente diferentes da Grécia devido à fonte de endividamento. Nos primeiros dois casos ela está concentrada no setor privado, enquanto no segundo o problema de excesso de dívida é do setor público. Mas como vimos recentemente no caso americano, não importa onde a dívida tenha se originado. O excesso de endividamento, seja do setor público, seja do setor privado, tem de ser resolvido para que alguma credibilidade possa ser restaurada.
A razão para a resistência das autoridades europeias quanto à reestruturação é compreensível. Há um risco considerável de que as implicações de um haircut das dívidas da Grécia, de Portugal e, sobretudo, da Espanha, sejam suficientemente severas para aniquilar de vez o euro. Também é fácil entender as razões dos alemães para insistir no compromisso de que os países problemáticos modifiquem radicalmente a sua postura fiscal. Como disse recentemente o atual presidente do Bundesbank, Axel Weber, cotado para substituir Trichet em 2011, durante o último Seminário do Regime de Metas de Inflação organizado pelo Banco Central, a recomposição da competitividade dos países endividados deveria vir de uma substancial moderação de salários, como fez a Alemanha durante a década de 90. Porém, a magnitude da moderação necessária não parece implementável. Por estas razões, o caminho por ora escolhido, isto é, o de ignorar o problema e tentar empurrá-lo para frente esperando que desapareça sozinho, só resultará em uma agonia lenta da moeda única, que, por fim, pode não resistir e desaparecer do mesmo modo.
É difícil julgar o que seria pior para a economia mundial. O risco de uma ruptura desordenada do regime monetário europeu certamente traria efeitos desastrosos para a recuperação global em andamento, razão para que muitos não queiram sequer contemplá-la. Por outro lado, a morte lenta e sofrida do euro exacerba a volatilidade dos mercados, prejudica os alinhamentos cambiais e dificulta o planejamento das empresas, restringindo o investimento. E, enquanto perdurar o questionamento dos mercados e a perda de valor dos ativos dos países com as maiores dificuldades, o BCE continuará forçado a comprar títulos soberanos, minando a reputação e o valor do euro.
No passado, quando as moedas eram cunhadas a partir de metais preciosos, desbastá-las significava reduzir, paulatinamente, o seu conteúdo de ouro ou prata. Analogamente, é isso o que poderá acontecer com o euro. Enquanto não se encontrar uma solução definitiva para os problemas da região, é provável que o conteúdo de marcos e francos siga se reduzindo enquanto aumenta o de dracmas, pesetas e escudos. Chega um momento em que os donos do ouro e da prata desistem de sustentar uma moeda que não reconhecem mais.