Entre o Prematuro e o Preventivo
De acordo com os verbetes do dicionário Houaiss da língua portuguesa, ações prematuras se realizam antes da ocasião própria, enquanto ações preventivas são executadas por medida de segurança, por razões profiláticas. O debate atual sobre a política monetária no Brasil situa-se em torno destas duas definições. Mas os dados, por enquanto, ainda sustentam (tenuamente) os argumentos daqueles que acreditam na prematuridade da remoção dos estímulos monetários.
A notável recuperação brasileira tem sido o destaque de inúmeras análises sobre o desempenho de algumas grandes economias emergentes no pós-crise. De fato, o país esteve entre os primeiros a sair da recessão, e a economia já dá sinais claros de aquecimento, a ponto de revigorar a discussão sobre os rumos da política monetária no Brasil. Mas embora existam argumentos ponderáveis para justificar movimentos “preventivos” das taxas de juros, os últimos números da economia não são consistentes com o excesso de zelo refletido nas análises mais recentes.
A inflação está em queda, como se tem observado na evolução do IPCA em 12 meses, e nas deflações registradas nos IGPs dos últimos meses. Embora a política monetária não responda, em tese, à evolução da inflação corrente, como o Banco Central enfatiza recorrentemente em suas atas, o fato é que não se tem registro de nenhum movimento preventivo de facto das taxas de juros. Isto é, as elevações da Selic tendem a acompanhar, com uma ligeira defasagem, as subidas inflacionárias. A razão é que embora o Banco Central queira sempre responder preventivamente, ele trabalha com um conjunto de informações limitado. Desta forma, para minimizar simultaneamente a volatilidade inflacionária e a volatilidade do nível de atividade, a autoridade monetária precisa assegurar-se de que os movimentos dos preços justificam uma ação de política, o que muitas vezes (mas nem sempre) significa agir com um pouco de “atraso”.
Ao mesmo tempo, a recuperação da atividade brasileira, embora surpreendente, não está tão exuberante como alguns imaginam. Os dados da produção industrial de novembro recém divulgados mostram um panorama bem mais ameno do que as análises mais panglossianas nos fariam acreditar. A atividade industrial caiu 0,2% em relação a outubro, com destaque para o mau desempenho do setor de bens de consumo duráveis, que apresentou uma retração de 6% no mês. Com isso, os volumes de produção da indústria parecem ter se estabilizado nos patamares de meados de 2007, depois da impressionante recuperação registrada desde o final do primeiro trimestre de 2009.
Figura 1

O resultado é que não temos ainda um cenário inequivocamente indicativo de “descontrole” inflacionário futuro. E só para não perder a perspectiva, o “descontrole inflacionário” que amendronta muitos analistas é uma inflação em torno de 6% (no pior dos casos) em 2011, mantidas as hipóteses favoráveis sobre a evolução da economia internacional e supondo-se que a deterioração fiscal atual estenda-se para o próximo governo.
A diferença entre ações prematuras e ações preventivas é sutil, mas não tanto quanto alguns parecem acreditar.