Liquidez e Política Monetária
Os mais recentes dados da economia americana reacenderam as dúvidas sobre quando o Fed elevará os juros. A produção industrial voltou a subir em novembro, depois da interrupção de outubro, e os índices de preços ao produtor e ao consumidor registraram elevações maiores do que se esperava no último mês. Apesar disso, o comitê de política monetária do Fed manteve, na sua declaração de hoje, os alertas sobre a fragilidade da economia e a necessidade de permanecer com taxas de juros anomalamente baixas por um período prolongado. Entretanto, há uma nítida mudança de percepção da autoridade monetária americana quanto à possível linha divisória entre as políticas de liquidez e a política monetária.
Quando a crise financeira se agravou no final de 2008, não havia distinção entre a provisão de liquidez e a política monetária. Com mercados de crédito agonizantes e a paralisação do interbancário ameaçando seriamente o funcionamento do sistema de pagamentos, ficou evidente que os instrumentos tradicionais de política monetária não seriam suficientes para restaurar a liquidez. Por esta razão, o Fed criou diversos novos dispositivos para impedir um total colapso financeiro, resultando em um aumento sem precedentes do seu balanço. Além de auxiliar a recomposição da oferta de liquidez via afrouxamento quantitativo, a manutenção de níveis excepcionalmente baixos para as taxas de juros também foi utilizada, em conjunto com as medidas de estímulo fiscal, para impedir que a recessão se agravasse.
Um ano depois da hecatombe financeira de 2008, é possível dizer com algum grau de confiança que os gigantescos estímulos monetários e fiscais de fato impediram que o colapso econômico fosse ainda mais grave e também que foram instrumentais para a retomada da atividade. Embora a economia americana ainda apresente severas fragilidades, há sinais animadores em alguns segmentos, como mostram os últimos dados da indústria. Além disso, o retorno do apetite dos investidores e as perspectivas um pouco melhores de algumas grandes instituições financeiras têm animado os mercados, sustentando uma visão mais positiva sobre os rumos da economia nos próximos meses.
Diante deste quadro, o Fed já começa a diferenciar a política monetária, direcionada para a manutenção de estabilidade dos preços e para a sustentação da atividade, da política de provisão de liquidez. Como a autoridade monetária americana tem explicitado em suas últimas declarações, os programas de sustentação de crédito começarão a ser extintos paulatinamente, antes que se contemple mais seriamente uma elevação dos juros. Essa assimetria entre a politica monetária e a provisão de liquidez nas fases de crise aguda e de recuperação é justificada. Não faz sentido iniciar um ciclo de alta de juros antes de remover os estímulos quantitativos, já que as medidas seriam conflitantes do ponto de vista da postura da política monetária. E como a solidez da recuperação americana ainda está longe de estar garantida, também não faz sentido que as duas medidas, remoção dos estímulos e aumento dos juros, sejam adotadas simultaneamente.
Resta saber se o crédito, cuja oferta continua em declínio, será capaz de se sustentar e de se recompor sem os programas do Fed. Por enquanto, a autoridade monetária americana parece acreditar que sim. Mas, como analisamos recentemente em um artigo para a Carta Econômica Galanto, ainda há fortes razões para duvidar disso.