Operações de Boca Aberta na Política Cambial

Enquanto as autoridades americanas defendem o “dólar forte”, o Ministro da Fazenda tenta (em vão) administrar a valorização do real com declarações atrapalhadas sobre a cotação “ideal” para a moeda brasileira. Apesar de tanto os EUA quanto o Brasil estarem tentando direcionar os mercados com declarações sobre o valor de suas moedas, há pouco em comum entre as duas posturas. Dólar forte, como discutiu Dionisio Carneiro em um post recente (ver blog – Galanto de 13/11), não é sinônimo de dólar valorizado, algo que as autoridades americanas entendem bem. Já o Ministro Mantega com suas declarações e o governo com algumas de suas ações têm feito bastante para enfraquecer o real, mesmo que tais atitudes não gerem a desejada desvalorização imediata.

 

A força de uma moeda depende da solidez dos fundamentos que a sustentam, isto é, da estabilidade inflacionária, da coerência entre as políticas fiscal e monetária, da sustentabilidade da dívida do país, e do equilíbrio nas contas externas, que não significa necessariamente que não possa haver um déficit na conta corrente do balanço de pagamentos. Embora a crise tenha abalado alguns destes fundamentos para a economia americana, as autoridades, como enfatizou o discurso de Bernanke analisado por Julia Folescu no blog – Galanto de ontem, estão se empenhando para colocar a economia em ordem de forma a continuar com uma moeda forte. Isto não é inconsistente com a desvalorização ordenada do dólar, necessária para reduzir o desequilíbrio das contas externas.

 

No Brasil, embora tenhamos visto uma substancial valorização do real nos últimos meses, que, por nossas contas, não implica ainda em um desalinhamento excessivo da moeda brasileira (ver “Qual o excesso de força do Real?” Carta Econômica Galanto de outubro), o futuro do real em um horizonte mais longo é menos garantido do que o otimismo atual com o país levaria a crer. A deterioração fiscal em andamento, embora menos assustadora hoje do que a que está ocorrendo em outros países, é mais permamente do que o desejável. Ao mesmo tempo, a política de crédito via bancos públicos não é consistente com uma política monetária mais restritiva, atualmente precificada na curva de juros brasileira. E o impulso fiscal aliado às políticas de sustentação de renda e crédito implicam em uma deterioração futura das contas externas que poderá ser maior do que a vislumbrada nos cenários de médio prazo. Estes fundamentos não são consistentes com a sustentação (no médio/longo prazo) do “real forte” que tanto assusta o Ministro. E no momento, o “real forte” está também sendo influenciado pelo brutal carry trade que tenho discutido neste blog.

 

Aliás, este fato significa que o Brasil não está perdendo competitividade em relação aos outros emergentes, como sugeriu o Ministro, já que estes países estão observando o mesmo fenômeno com o preço de seus ativos e de suas moedas. O Ministro citou o exemplo da indústria coreana para ilustrar a perda de competitividade da indústria brasileira e para justificar a opinião de que a cotação ideal para o real seria de R$ 2,60 contra o dólar. Como mostra a figura abaixo, os R$ 2,60, mantendo o won constante, seria equivalente à taxa de câmbio entre as moedas brasileira e coreana de janeiro de 2008. O movimento de apreciação do real frente ao won só foi interrompido com o agravamento da crise no ano passado, e desde então a cotação entre as duas moedas tem estado constante, dado o movimento de valorização dos últimos meses. O interessante é que em janeiro de 2008, a taxa de câmbio entre o real e o dólar, consistente com a paridade de R$ 0,002 entre o real e o won, era de R$ 1,77, não muito distante da cotação atual.

 

Figura 1

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É natural que diante das sequelas da crise financeira internacional que têm afetado agudamente os mercados de câmbio, as autoridades locais saiam em defesa da estabilidade cambial, seja esta no sentido de valorização ou de desvalorização das suas moedas. Em regimes de taxas de câmbio flutuantes, não é possível fazer muito mais do que dar declarações para orientar os movimentos de mercado. As autoridades americanas têm feito isso com a devida cautela, evitando confundir o conceito de força da moeda, relacionado à solidez dos fundamentos, com o seu valor nominal de curto prazo. Seria bom se aprendêssemos a fazer o mesmo

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