Um Fed Enfraquecido?

Até a semana passada não havia dúvidas sobre a permanência de Bernanke no cargo. Mas depois da derrota de Obama em Massachusetts, voltou-se a especular sobre a possibilidade de que o atual presidente do Fed não continue a chefiar o banco central americano. Tal possibilidade mereceu inclusive a atenção do economista Paul Krugman, que manifestou o seu apoio duvidoso ao atual presidente do Fed em uma de suas colunas mais cáusticas e self-serving (não há equivalente em português à altura) dos últimos tempos (ver “The Bernanke Conundrum” de 24/01 no New York Times). Quais as possíveis implicações para a política monetária americana?

 

A audiência de confirmação de Bernanke em dezembro já havia sido bastante complicada. Naquela altura, diversos Senadores, democratas e republicanos, manifestaram seu enorme desagrado com a condução da política monetária americana, sob o argumento de que poderia acabar alimentando bolhas de ativos, com as medidas de resolução da crise, por beneficiar excessivamente Wall Street em detrimento de Main Street, e com a taxa de desemprego crescente. Isto além de atribuir uma boa parte da culpa pela leniência regulatória que levou à maior paralisação do crédito da história recente a Bernanke. O presidente do Fed resistiu estoicamente aos ataques e acabou sendo confirmado, o que eliminou as especulações acerca da sua possível não-permanência. Até agora. A derrota política de Obama em Massachusetts e a crescente ira dos políticos e da população com os resultados exuberantes de algumas instituições financeiras e a percebida subserviência da administração aos banqueiros de Wall Street reascendeu a possibilidade de que a votação do Senado para aprovar a recondução de Bernanke não esteja definida.

 

Embora o mais provável ainda seja uma votação favorável a Bernanke, o fato é que esta discussão pode enfraquecer consideravelmente o banco central em um momento delicado para a economia americana, conforme analisamos em 21/10 (ver “O Fed, os Juros e a Estagflação”). Em seus últimos pronunciamentos, Bernanke tem enfatizado sua preocupação com a evolução dos preços, que como comentamos recentemente, já está fora da sua zona de conforto (abaixo de 2%). Estas declarações são menos um anúncio de intenção imediata de remover os estímulos monetários, já que a recuperação é ainda incipiente e que o Fed possui o mandato duplo de zelar pelos preços e pela atividade, e mais uma forma de sinalizar para os mercados que o Fed está de olho na inflação. A sinalização é fundamental para manter as expectativas de inflação ancoradas em meio às incertezas quanto à evolução da economia americana. Entretanto, com a percepção de um Fed enfraquecido, que não terá espaço para fazer mais do que sustentar a débil demanda agregada, fica cada vez mais difícil acreditar nessas operações de boca aberta.

 

O resultado poderá ser novos surtos de volatilidade acentuada nos mercados, para os quais temos alertado nos últimos meses.  E, por conseguinte, uma conjuntura global mais hostil em 2010.

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