A Estrada Longa e Sinuosa da Recuperação
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Na música melancólica de Lennon e McCartney, o caminho era árduo, mas ao menos o destino era certo:
“The long and winding road
That leads to your door
Will never disappear
I´ve seen that road before
It always leads me here
Leads me to your door”
Não dá para dizer o mesmo da recuperação americana.
Ontem os mercados regozijaram-se com os resultados do PIB americano, que cresceu pela primeira vez em mais de um ano, levando muitos a declarar o fim da mais longa recessão desde a Grande Depressão. De fato, os dados vieram bem melhores do que os analistas esperavam, mesmo que o desempenho do terceiro trimestre tenha refletido uma série de estímulos temporários, como os subsídios para a compra de carros usados, já extintos, e trouxeram boas notícias em termos da evolução do consumo e do investimento, que cresceu pela primeira vez este ano depois de dois trimestres catastróficos.
Tabela 1

Ao contrário do governo Lula, que com a sua mágica habitual promete transformar medidas anticíclicas temporárias em medidas “ambientais” permanentes, a administração Obama sabe que não dá para sustentar para sempre programas de estímulo setorial sem ferir mortalmente as cambaleantes contas públicas. Por isso o caminho da recuperação continua cheio de percalços, impedindo que os fortes sacolejos do mercado caiam no esquecimento, como mostraram os últimos dias. A mais recente evidência de que a economia americana ainda está longe de andar com as próprias pernas foi o resultado das despesas das famílias americanas em setembro. Depois da melhoria de agosto, os gastos do consumidor voltaram a cair em setembro, refletindo o término de algumas medidas de estímulo adotadas nos últimos meses e o panorama sombrio do mercado de trabalho (figura 1).
Figura 1

Como já argumentei em outras ocasiões, a atual recuperação não poderá se dar sem o mercado de trabalho, ao contrário de recuperações anteriores, pois esta recessão foi também causada por um sobre-endividamento das famílias que inevitavelmente terá de ser revertido. E isto ainda está longe de acontecer, como mostra o gráfico abaixo:
Figura 2

Como se vê, o consumo caiu apenas 1% desde o auge dos exageros alcançados em 2007 e 2008, e está sendo sustentado neste nível pelas medidas de estímulo do governo. Aliás, aqui é que está o grande “culpado” dos desequilíbrios globais, que as autoridades americanas querem resolver com mudanças na política cambial chinesa…
Quando o consumo das famílias americanas passar pelo ajuste necessário para adequar a economia dos EUA à sua nova realidade, que só saberemos qual será depois que o Estado sair de cena, é que poderemos ter uma ideia do destino ao qual levará a tal da estrada longa e sinuosa da recuperação.










