Desperdiçando a Crise
quinta-feira, 24 de setembro de 2009Crises financeiras tendem a ser boas oportunidades para promover reformas abrangentes que, em situações de normalidade, esbarrariam em obstáculos intransponíveis. Este é o caso da reforma regulatória do sistema financeiro internacional, que deveria ser o foco principal da reunião do G-20, mas que foi deslocado pela insistência americana em discutir os desequilíbrios macroeconômicos…dos outros.
Os desequilíbrios globais que assombram a economia mundial há vários anos são, sem dúvida, importantes. A ameaça que os déficits gêmeos dos EUA apresentam para a organização dos mercados de câmbio e para os valores relativos das moedas dos diversos países não pode ser exagerada, como discuti recentemente (ver o comentário de 21/09). De fato, a desvalorização secular do dólar, por enquanto ainda gradual e ordenada, tem incitado toda sorte de argumentos intervencionistas naqueles países que, por uma combinação de solidez dos fundamentos e posição privilegiada para usufruir do dinamismo asiático, têm observado o fortalecimento das suas moedas. É o caso do Brasil, que comentei ontem, onde o desarticulado debate sobre o nível do câmbio voltou a ser a bandeira dos eternos defensores das políticas desenvolvimentistas ultrapassadas.
Os desequilíbrios globais são um fato que não desaparecerá da tela mundial por um bom tempo. Sua resolução, agora complicada pela crise financeira internacional, dependerá não só dos realinhamentos entre a poupança privada americana e o consumo privado dos países superavitários, como também da coordenação internacional para reverter os pacotes de estímulo daquelas economias cujos impulsos perdulários já eram evidentes antes da turbulência financeira. E dada a fragilidade da incipiente recuperação nestas economias, a reversão dos estímulos não poderá ocorrer tão cedo.
Por que então estão os EUA tão dispostos a tornar este o tema central das discussões em Pittsburgh? Por um lado, porque faz parte da tradição de política externa dos EUA colocar a culpa nos outros. A ideia de que a poupança dos superavitários prejudica o reequilíbrio americano ao “forçar” que os consumidores continuem a gastar além da conta é o melhor exemplo disso – esta é a tese do “Global Savings Glut”, reeditada. Mas além da notória arrogância daquela que, por enquanto, ainda é a maior economia do mundo, há também uma preocupaçãp em desviar o foco da atenção do debate regulatório, já que a proposta de reforma da administração Obama vem enfrentando sérios obstáculos na discussão do Congresso. As dificuldades de aprovar o plano de reforma ganharam nova dimensão depois que Paul Volcker, assessor especial da Casa Branca, manifestou ceticismo em relação a dois pontos fundamentais da proposta:
- Primeiro, como estabelecer a fronteira entre as instituições sistêmicas, aquelas que estariam sujeitas às maiores exigências de capital propostas pela equipe de Obama, e as demais?
- Segundo, como garantir que o proposto Conselho Supervisor formado por membros das diversas agências regulatórias consiga cumprir o mandato de coordenar os diversos orgãos reguladores de forma a zelar eficazmente pela estabilidade financeira?
A primeira dúvida ilustra a dificuldade de estabelecer, através de critérios puramente objetivos, quais as instituições que deveriam ser reguladas de forma mais rígida, o que diminuiria a competitividade em tempos normais, mas deixaria em evidência a desvantagem das instituições menores, suficientemente pequenas para quebrar, em épocas turbulentas. A segunda vem da observação de um policymaker com muitos anos de experiência: como que um conselho composto por agências reguladoras com focos e culturas tão distintos, para não falar das brigas territoriais, poderia se tornar um orgão supervisor com visão independente para cumprir o seu mandato de guardião da estabilidade financeira?
Ao contrário do que declarou Angela Merkel, os desequilíbrios globais não são uma mera distração, mas um problema que precisa ser encarado por todos e que invariavelmente dependerá de uma substancial articulação global. Mas a Chanceler alemã está certa em enfatizar que a reunião do G-20 deveria se concentrar na discussão das diferentes propostas de reforma regulatória do sistema financeiro. Não só porque a definição das novas regras do jogo é fundamental para que os mercados de crédito voltem a funcionar normalmente, garantindo a sustentabilidade da recuperação. Mas também porque a janela para que esta discussão estabeleça os alicerces de um sistema que não estará sujeito à crises semelhantes a que acabou de ocorrer está se fechando rapidamente.









