Arquivo de agosto de 2009

Dura ou Não Dura?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O desempenho da indústria brasileira em julho surpreendeu positivamente ao mostrar uma variação no mês bem superior à da última divulgação, que havia sido de apenas 0,2% em relação a maio. Por categoria de uso, a grande contribuição veio do setor de bens de consumo duráveis, que aumentou no mês cerca de 4,5%, ainda beneficiado pelas reduções de impostos e outras medidas de combate à crise. Já de acordo com o corte setorial, a boa surpresa foi o desempenho do setor de máquinas e equipamentos, que cresceu cerca de 9% em julho. A dúvida, entretanto, é se esta recuperação da indústria é sustentável.

 

Há razões para algum otimismo. Como analisamos em um artigo para o próximo número da Carta Galanto, a crise financeira internacional trouxe uma importante reconfiguração das redes de comércio e produção mundiais, reorganização esta que tem beneficiado mais alguns países emergentes do que outros. O Brasil tem sido particularmente favorecido por estas mudanças ao ficar crescentemente inserido na zona de influência chinesa, onde a recuperação tem despontado de forma mais vigorosa. De fato, o gráfico abaixo mostra que o desempenho da indústria brasileira nos últimos meses tem acompanhado a retomada da atividade na China, enquanto a atividade industrial no mundo permanece estagnada, apesar de toda a torcida dos mercados, analistas, e gestores de política econômica evidenciada recentemente.

 

Figura 1

090831_fig1

Por outro lado, se a fonte de recuperação da indústria brasileira estiver mais relacionada às medidas do governo do que à reconfiguração mundial e ao efeito-China, as perspectivas são menos favoráveis. E os números do IBGE parecem confirmar esta suspeita, ao indicar que os setores que estão puxando a recuperação são exatamente aqueles que vêm sendo beneficiados pelo governo. A rápida deterioração dos indicadores fiscais brasileiros, tema que temos abordado nos últimos números da Carta Galanto e que retomamos na próxima edição, ilustra as dificuldades de dar continuidade às medidas de sustentação setorial, como as reduções de IPI e o “afrouxamento quantitativo à brasileira” (isto é, via bancos públicos). Neste caso, a recuperação da indústria poderá ser interrompida nos próximos meses, com implicações para as perspectivas de 2010. Ou seja, ou o governo continua adotando medidas de estímulo com um custo crescente de desestabilização macroeconômica, ou a atividade seguirá uma trajetória bem diferente do V na cabeça de muitos analistas.

 

Portanto, se a durabilidade da recuperação industrial depender apenas do setor de bens de consumo duráveis, a provável resposta à pergunta do título deste post é, ironicamente, não.

 

 

 

O Que (Não) Fazer com o Câmbio

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Há duas semanas atrás, a revista britânica The Economist exibiu uma capa primorosa, onde aparecia o Presidente Lula, vestido com a característica indumentária de Hugo Chavez, demonstrando o característico molejo brasileiro com uma bola de futebol. A matéria perguntava de que lado, afinal, está o Presidente brasileiro: alinhado com os mais controversos líderes da esquerda latino-americano, ou com os mais “bem comportados” e sensatos? Algo desta pergunta tem relação com o atual debate sobre a taxa de câmbio no Brasil, onde alguns interlocutores mais próximos do Presidente da República insistem em ressuscitar modelos comprovadamente falidos de ingerência cambial para conter a “valorização excessiva”.

 

No início da semana, algumas autoridades venezuelanas atiçaram os rumores de que o governo esteja prestes a adotar um regime de taxas de câmbio múltiplas para lidar com as pressões de desvalorização do Bolívar decorrentes da queda nas receitas do petróleo. A Venezuela opera há vários anos um regime de taxa de câmbio fixa, onde a cotação oficial do dólar 2,15 Bolívares. Entretanto, no mercado paralelo, a taxa de câmbio já chega a 6,5 Bolívares por dólar, ilustrando a significativa magnitude do spread entre as cotações oficiais e extra-oficiais. Para diminuir essas diferenças sem permitir uma desvalorização da moeda, o que poderia acentuar consideravelmente as pressões inflacionárias no país, já substancialmente elevadas (a inflação de julho comparada ao mesmo período de 2008 foi de 28,3%), as autoridades estão aparentemente considerando a implementação de um regime cambial que nos deu muita dor de cabeça há 30 anos atrás. Como no filme “Shane”, o clássico do faroeste de 1953 (faroeste sendo uma boa metáfora para a Venezuela, onde quase tudo vale), os regimes de taxas de câmbio múltiplas sempre terminam com a morte do mocinho.

 

Outro vizinho próximo, a Argentina, também tem utilizado a política cambial para administrar os trade-offs entre crescimento e inflação. No caso argentino, mira-se a manutenção de um determinado nível de competitividade da moeda, seguindo uma meta para a taxa de câmbio real. O objetivo das autoridades é evitar tanto as valorizações “excessivas” que possam prejudicar as exportações do país, quanto as desvalorizações “exacerbadas” que possam por em risco a trajetória de inflação. Como já discuti em outras ocasiões (ver “A Taxa de Câmbio Real é Instrumento de Política Econômica?” de março de 2007 em www.iepecdg.com e no jornal Valor Econômico), economias com livre entrada de capitais não conseguem administrar a taxa de câmbio real por muito tempo, pois o resultado, em geral, é o descontrole monetário. Isto é o que tem acontecido na Argentina, onde a taxa de inflação extra-oficial (e, portanto, não manipulada pelas autoridades) é hoje bastante elevada.

 

Os regimes de taxas de câmbio flutuantes como o brasileiro têm inúmeras vantagens, mas às vezes apresentam também algumas desvantagens. Uma desvantagem importante são as possíveis oscilações excessivas, como as que caracterizaram os piores momentos do agravamento da crise financeira no fim do ano passado. Atualmente, a valorização do Real tem, em parte, corrigido alguns excessos nos movimentos que se seguiram ao pânico financeiro de 2008, como também refletido o maior apetite dos investidores externos por ativos brasileiros. O patamar atual, de cerca de R$ 1,85 está significativamente mais desvalorizado do que o mínimo alcançado nas vésperas da turbulência do final do ano, quando a cotação do dólar em reais chegou a R$ 1,57, levando alguns analistas a falar em valorização excessiva.

 

Figura 1

090827_fig1

A taxa de câmbio real, que seguia uma trajetória de apreciação desde 2004, sequer retornou aos níveis observados antes da crise, como mostra a figura abaixo.

 

Figura 2

090827_fig2

Diante destas constatações, parece difícil falar em valorização “excessiva”, ou mesmo em “doença holandesa”, como querem alguns. A recuperação das exportações e da indústria brasileira não está sendo prejudicada pelo câmbio “pouco competitivo”, mas sim pelas condições externas, que apesar de melhores, ainda estão bastante desfavoráveis.

 

A volta do debate em torno do que fazer com a taxa de câmbio é, assim, um retrocesso. Digno da capa da revista The Economist, como a qual iniciei este post.

 

 

 

A Recondução de Bernanke

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Depois do discurso otimista proferido na reunião anual de Jackson Hole do último fim de semana, onde Bernanke não economizou palavras para enfatizar os esforços do Fed no combate à crise e os seus resultados mais imediatos, Obama hoje anunciou a intenção de renovar o mandato do presidente do banco central americano. Embora a recondução de Bernanke ainda necessite da aprovação do Senado, a manifestação de apoio do Presidente veio em um momento importante, quando crescem as critícas à atuação de Bernanke e as pressões para que os poderes do Fed sobre o sistema financeiro não sejam aumentados, como prevê a proposta de reforma regulatória encaminhada ao Congresso pela atual administração.

 

É difícil exagerar a importância de garantir a continuidade no comando do Fed agora, a despeito das possíveis falhas cometidas pelo chefe do principal banco central global apontadas por certos analistas. Neste momento, em que recuperação é ainda incipiente e a recomposição dos mercados de crédito começa a despontar, não há espaço para a introdução de incertezas institucionais. Ao contrário, esta é a hora de reorganizar as bases do sistema financeiro americano, fortalecendo o arcabouço institucional, para que a retomada da atividade não seja apenas um soluço temporário, implicando na trajetória em W vislumbrada pelos mais pessimistas. Um pilar fundamental desta reorganização é a reforma regulatória proposta pela equipe de Obama, que prevê um novo papel para o Fed como regulador dos riscos sistêmicos, e que tem sido alvo de incansáveis críticas, tanto de políticos, quanto de outros reguladores do sistema financeiro americano. A proposta de Obama e as possíveis implicações para a nova arquitetura de regulação que poderá emergir da crise são o tema de um e-book recentemente publicado pelo Instituto de Estudos de Política Econômica – Casa das Garças (ver “A Reforma do Sistema Financeiro Americano: Nova Arquitetura Internacional e o Contexto Regulatório Brasileiro” em www.iepecdg.com).

 

O monitoramento adequado dos nódulos principais das redes de fluxos financeiros, previsto na proposta de reforma regulatória e necessário para controlar o grau de risco sistêmico evidenciado nesta crise, dificilmente poderá ser feito por outra instituição que não o Fed. Primeiro porque o banco central americano já é o regulador principal dos maiores bancos do país, acumulando, portanto, a experiência e os recursos para estender o seu mandato para as outras instituições não-bancárias cruciais para o funcionamento das redes financeiras. Segundo porque a primeira linha de defesa contra a falta de liquidez decorrente de uma crise é o arsenal à disposição do banco central, como mostrou a brutal expansão do balanço do Fed nos últimos meses. Parece adequado, portanto, que a autoridade monetária seja responsável pela supervisão direta daquelas instituições que ameacem a disponibilidade de liquidez do sistema, exigindo atuações agressivas do banco central. Por ter sido o principal formulador e gestor das medidas de assistência aos mercados de crédito nesta crise, Bernanke parece ser a pessoa mais indicada para ajudar a implementar estas mudanças fundamentais de foco regulatório, caso a proposta atual seja aprovada pelo Congresso, o que justifica o apoio tempestivo do Presidente Obama.

 

No entanto, não faltam críticas e manifestações de desagrado com o anúncio de hoje sobre o futuro do atual presidente do Fed. Em um artigo cáustico para o jornal Financial Times, Stephen Roach da Morgan Stanley argumenta que a recondução de Bernanke teria implicações desastrosas para a economia americana. O autor aponta três motivos básicos para isso: primeiro, Bernanke sempre defendeu o princípio de que a autoridade monetária não deve combater as bolhas especulativas, o que, segundo Roach, perpetuaria as potenciais vulnerabilidades que deram origem a esta crise. Segundo, como um dos proponentes da tese do “global savings glut” Bernanke exonerou os EUA da responsabilidade sobre os desequilíbrios globais que, se não precipitaram a atual crise, ao menos amplificaram os deslocamentos dela resultantes (isto é, a recessão decorrente da crise, por exemplo, poderia ser menor caso as famílias americanas não estivessem sobre-endividadas, o que levaria a uma correção menos acentuada do consumo). Por fim, Roach critica Bernanke por ter sido leniente na regulação das instituições financeiras e arremata argumentando que o Fed não será capaz de zelar pela estabilidade financeira do sistema, como prevê a proposta de reforma, caso o mandato da política monetária não seja alterado para incluir uma preocupação explícita com a ocorrência de bolhas de ativos.

 

Cabem certas qualificações a alguns destes argumentos. A posição de Bernanke em relação à condução da política monetária diante da possibilidade de bolhas de ativos não é que a autoridade monetária não deve agir preventivamente, como diz Stephen Roach. O que o atual presidente do Fed sempre enfatizou é que a taxa de juros é um instrumento bastante inadequado para estourar bolhas, pois seria necessário aumentá-la substancialmente para eliminar os excessos nos preços dos ativos, o que teria graves consequências sobre a atividade econômica – algo como matar uma mosca com um tiro de canhão. Isto, no entanto, não quer dizer que o banco central possa ignorar a possibilidade de estar alimentando bolhas futuras com taxas de juros excessivamente baixas por um período prolongado. A experiência pela qual passou a economia mundial nos últimos dois anos parece ter eliminado qualquer dissenso em relação à esta questão, o que implica que não há nenhuma inconsistência entre a maior vigilância com as bolhas (e a postura monetária para evitá-las) e a não-atuação direta da política monetária para estourá-las. Não parece, portanto, haver dissonâncias entre o papel do Fed como garantidor da estabilidade financeira e o mandato atual da política monetária nos EUA, como argumenta Stephen Roach.

 

Por outro lado, é difícil contrapor o argumento de que a tese do “global savings glut” tenha contribuído para a maior leniência das autoridades americanas diante dos riscos que estavam sendo semeados com a perpetuação do sobre-endividamento americano. A popularização desta tese parece ter sido o grande erro de julgamento de Bernanke no período que antecedeu a crise financeira atual. Mas isto não o desqualifica como policymaker habilidoso e pragmático. Sobretudo quando se leva em conta que nenhum economista foi capaz de prever, exatamente, como se desdobraria a crise. Nem mesmo Nouriel Roubini.

 

O instigante debate em torno da continuação de Bernanke está apenas começando. Resta torcer para que não se torne uma caça às bruxas capaz de reverter os ganhos de confiança recentemente reconquistados, sem os quais a (tímida) recuperação atual não será mais do efêmera.

A Autocatalização Asiática

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Setor de construção nos EUA desacelera em julho. Indicadores de confiança do setor imobiliário americano aumentam em agosto. Produção industrial nos EUA sobe em julho. A confiança do consumidor americano cai inesperadamente. Estas 4 manchetes apareceram recentemente (18/08) em sequência no jornal Financial Times, sublinhando as dificuldades de interpretar os dados americanos e identificar o “fim da recessão” que muitos acreditam estar ao alcance. Em contrapartida, as notícias da Ásia têm sido inequivocamente positivas, haja visto a reação do PIB japonês, das exportações da Coréia e de outros países da região, e dos indicadores da China. No entanto, muitos analistas têm tentado extrair água de pedra no caso americano e têm se assustado com a própria sombra no caso da Ásia…

 

Os efeitos da recuperação chinesa sobre o que denominamos de Complexo do Pacífico (ver blog Galanto de 17 de agosto) têm sido a melhor notícia para a economia mundial, em meio a tantos indicadores contraditórios nas economias centrais. O impulso gerado pelos pacotes de estímulo fiscal têm ajudado a reorganizar as redes de produção intraregionais, desmanteladas com o colapso do crédito no fim do ano passado. Esta reestruturação das cadeias produtivas têm permitido a recuperação das exportações de muitas dessas economias, onde o setor externo exerce um papel fundamental como fonte de crescimento. A China tem, portanto, sido um importante catalisador do maior dinamismo da região, que, mesmo não sendo suficiente para substituir a máquina consumidora americana, não deixa de ser um fator de sustentação da atividade global. E qualquer sustentação da produção mundial, mesmo que tímida, é bem vinda.

 

Em um artigo para a próxima Carta Econômica Galanto, analisaremos mais profundamente como tem sido a recuperação das economias asiáticas e discutiremos quais as implicações disso para os cenários para a economia mundial, e sobretudo para o Brasil, atualizando a avaliação feita em abril de 2009 (ver “Uma Recuperação Liderada pela China?” Carta Econômica Galanto 113). Mas a tabela abaixo já fornece uma primeira ilustração da importância da China na recuperação das demais economias do Complexo do Pacífico. Tomando apenas as exportações dos diferentes países, nota-se o brutal aumento do papel da China como motor regional entre dezembro de 1999 e dezembro de 2008, e o notável declínio da influência americana (tabela 1).

 

Tabela 1

090819_tab1

Em Biologia, os conjuntos autocatalíticos são entidades cujas propriedades são produzidas pelos próprios elementos do conjunto, isto é, o conjunto tem a capacidade de se autoreproduzir. Até o momento, as evidências tem sugerido que o Complexo Asiático do Pacífico, crescentemente vinculado à China, se tornou um conjunto autocatalítico. Mas mesmo os conjuntos autocatalíticos precisam de uma fonte de energia externa para se sustentar. A fonte externa de energia para o Complexo Asiático era, até a eclosão da crise financeira, a demanda originada nos países centrais, sobretudo nos EUA e na Europa. A grande dúvida, portanto, é até quando pode durar o dinamismo autoalimentado da região se não forem encontradas fontes alternativas de energia, caso a capacidade de autoestímulo chinês se esgote.

Fed Anticlimático

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Para os que esperavam anúncios à altura das surpresas orquestradas pelo Banco da Inglaterra na semana passada, a decisão do Fed de hoje foi, no mínimo, anticlimática. Não só o banco central americano evitou falar de aumentos de juros, continuando a insistir que manterá as taxas excepcionalmente baixas por um período prolongado, como também não alterou substancialmente o seu arsenal de políticas não-convencionais. A extensão do prazo para completar as compras de US$ 300 bilhões de Tresuries não pressagiam, necessariamente, o fim do programa, como interpretaram alguns analistas. A decisão pode simplesmente refletir a preocupação do Fed com a volatilidade de curto prazo destes mercados , que continua excessiva.

 

Assim como os dados econômicos, a declaração do FOMC após a reunião de política monetária permite interpretações tanto otimistas quanto pessimistas. Por um lado, o Fed continua a ver sinais de estabilização na economia, motivados, em grande parte, pela melhoria sistemática dos mercados financeiros. Mas, por outro, a autoridade monetária americana também disse que a atividade econômica deverá permanecer fraca, o que é consistente com a sua intenção de manter os juros próximos de zero por “um período extenso”.

 

Ao mesmo tempo, o Fed não deu sinais claros sobre o que pretende fazer com o seu programa de compras de títulos do Tesouro. A extensão do prazo para completar o montante de US$ 300 bilhões suscita, no mínimo, duas interpretações. A primeira é que o Fed pretende amortecer o impacto do término do programa sobre os mercados de forma mais suave, dando um mês adicional para que os investidores se aconstumem com a sua ausência nos leilões de títulos de longo prazo. A outra é que o banco central americano não quer ser uma fonte adicional de volatilidade de curto prazo, evitando semanas como a atual, em que vários leilões vultosos foram realizados em sequência. A figura abaixo mostra a evolução dramática da volatilidade diária dos títulos do Tesouro de 10 anos desde 2007.

 

Figura 1

090812_fig1

O risco de maior recessão antes de haver uma recuperação com fôlego suficiente é consistente com com as sucessivas reafirmações de políticas econômicas expansionistas e com o discurso de continuidade do Fed implícito na declaração de hoje. Estes têm sido pontuados por admissões protocolares sobre as estratégias de saída, que ainda parecem estar muito longe de se materializar. Se os governos parecem mais preparados para uma nova rodada de medidas de estímulo e de continuar com a capitanear políticas não-convencionais, é porque temem mais uma nova onda recessiva do que a  inflação desorganizadora com a qual muitos parecem contar.

Políticas Não-Convencionais

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Na semana passada o Banco da Inglaterra surpreendeu os mercados com o anúncio de que iria aumentar o seu programa de compras de ativos em mais 50 bilhões de libras, comprometendo 175 bilhões de libras, ou cerca de 9% do PIB, para ajudar o sistema financeiro a recompor a oferta de crédito. Esta semana, o FOMC reúne-se para mais uma vez decidir se aumenta o programa de compras de títulos do governo de US$ 300 bilhões, e os mercados esperam por sinais de que a autoridade monetária americana já esteja enxergando o fim das políticas não-convencionais. Independentemente da retórica do Fed, é pouco provável que isso aconteça nos próximos meses…

 

Embora os jornais continuem repletos de notícias positivas sobre a situação de algumas grandes instituições financeiras americanas (o mesmo não se pode dizer dos bancos europeus), não há evidências animadoras sobre a recomposição da oferta de crédito. O balanço do Fed continua inchado com o volume de reservas excedentes do sistema bancário, em uma clara ilustração de que a liquidez que está fluindo para os bancos continua a não irrigar completamente os mercados privados, e a retração da oferta de crédito, sobretudo às empresas, segue inabalada, como mostra a figura abaixo.

 

Figura 1

090810_fig1

As políticas não-convencionais do Fed e do Banco da Inglaterra não são exatamente iguais às conduzidas pelo Banco do Japão entre 2001 e 2006. Enquanto a política japonesa resultava na expansão da oferta de moeda através da compra não-esterilizada de ativos, as políticas americana e inglesa envolvem compras parcialmente esterilizadas que não têm resultado em uma expansão da liquidez de magnitude semelhante à ocorrida no Japão. Por esta razão, muitos preferem não se referir às políticas não-convencionais atuais como “afrouxamento quantitivo”, cunhando outros termos, como “afrouxamento qualitativo” (ver Willem Buiter (2008) “Quantitative Easing and Qualitative Easing: A Terminological and Taxonomic Proposal”)), para designar tais medidas.

 

Mas independentemente da forma que se escolha para referir-se às políticas não-convencionais adotadas pelos bancos centrais, o fato é que têm sido duramente criticadas, razão pela qual (além do otimismo reinante nos mercados) alguns esperam que o “início do seu fim” seja brevemente anunciado. Os crítico dividem-se, a grosso modo, em dois campos: aqueles que acreditam que os programas de compras de ativos não estão surtindo o efeito desejado, e, portanto, estão arriscando desnecessariamente a reputação dos bancos centrais, e aqueles que acham que as políticas não-convencionais levarão inevitavelmente ao descontrole inflacionário.

 

Tabela 1

090810_tab11

Como é a regra em se tratando de política econômica, não há cenários contrafatuais para refutar o primeiro conjunto de críticas. Já o segundo, embora aponte para um risco concreto, não deixa claro quais seriam as alternativas para evitar o colapso do crédito sem aumentar os riscos futuros para a trajetória de inflação. E as políticas não-convencionais não têm sido tão ineficazes assim, como mostra um artigo recente do FMI (ver André Meier (2009) “Panacea, Curse, or Nonevent? Unconventional Monetary Policy in the United Kingdom”).

 

Diante das dificuldades ainda presentes nos mercados de crédito e da dependência das instituições financeiras na continuação das medidas de apoio do governo, é prematuro imaginar que o Fed consiga brevemente por em marcha a reversão do seu balanço. Ou melhor, os anúncios a respeito da intenção de frear a expansão do balanço refletem muito mais a impossibilidade de manter tais políticas para sempre, por um lado, e aplacar as pressões sobre a atuação de Bernanke, por outro, do que à melhoria das perspectivas econômicas. Como mostraram as experiências dos EUA na década de 30 e do Japão no início dos anos 2000, políticas não-convencionais abortadas antes do tempo geralmente são retomadas pouco depois, com implicações negativas para a confiança e a recuperação econômica. O Fed sabe bem disso.

 

 

 

 

Excesso de Otimismo?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A melhoria de alguns indicadores globais justifica a euforia incansável das bolsas? As notícias sobre o estado das economias centrais, embora marginalmente animadoras, ainda dão sinais mistos sobre a sustentabilidade da recuperação. A economia americana continuou a contrair no segundo trimestre, como mostrou o PIB divulgado na semana passada. A situação da indústria segue periclitante, tanto no resto do mundo quanto no Brasil, onde a recuperação perdeu fôlego em junho apesar do setor de bens de capital ter reagido pela primeira vez desde que a crise se agravou. E mesmo que os sinais de retomada da atividade fossem mais claros e menos sujeitos à fragilidade dos cenários, as perspectivas de lucratividade das empresas não seriam consistentes com os aumentos de mais de 40% verificados nos principais mercados acionários globais desde o início do ano.

 

Em grande parte, os mercados acionários em todo o mundo parecem estar dominados pelo chamado “viés de disponibilidade” (availability bias), fenômeno cognitivo onde os indivíduos fazem inferências sobre o futuro baseados no conjunto de informações mais acessível, que em geral tende a ser constituído apenas dos fatos ocorridos no passado recente. Isto é, os agentes julgam que o que irá ocorrer no futuro próximo será muito semelhante ao que acabou de acontecer, geralmente mais presente na memória. Isso explica porque as pessoas ficam tão sujeitas à síndrome do “melhor do que o esperado”: se o passado recente foi catastrófico, qualquer evidência de que tal cenário não está se repetindo é razão para a otimismo. Essa é uma forma de entender o comportamento das bolsas, cujo descolamento extraordinário se explica, em larga medida, a partir das preconceitos existentes na cabeça dos analistas e investidores.

 

Isto não é negar a relevância dos sinais de melhoria. Mas melhoria não é crescimento, ao menos por enquanto. Tomemos o caso da indústria brasileira. Embora a atividade industrial tenha crescido desde o início do ano, o nível ainda está muito longe do pico alcançado em julho de 2008, o que significa que a indústria só estará crescendo depois de retornar a este patamar. E as chances de que isto ocorra este ano são ínfimas, sobretudo diante da possibilidade de que a recuperação perca fôlego depois que os efeitos das medidas anticíclicas e de suporte setorial adotadas pelo governo tenham se dissipado. Na verdade, já há alguns sinais de perda de vigor na retomada da indústria, como mostrou a desaceleração do crescimento mensal verificado em junho (figura 1).

 

Figura 1

080804_fig11

Ao mesmo tempo, os sinais sobre as perspectivas da atividade industrial global ainda são consistentes com a retração, embora a um ritmo bem menor. Como mostra a evolução do índice PMI global construído pela Galanto, a indústria global ainda não ultrapassou os fatídicos 50 pontos, limite a partir do qual é possível falar em expansão da atividade, embora a recuperação no início do segundo semestre tenha sido substancial (figura 2).

 

Figura 2

080804_fig2

Há, portanto, bons motivos para a preocupação com a escalada das bolsas, sobretudo por parte dos gestores de política econômica. O desempenho da bolsa brasileira, por exemplo, legitimiza uma maior cautela da autoridade monetária brasileira em relação à trajetória dos juros, cujos fundamentos, na ausência destes excessos, poderiam até justificar uma continuação da flexibilização monetária.

 

É bom ficar atento às tentações do viés de disponibilidade e ao seu oposto, isto é, a tendência a não acreditar que um fenômeno possa ocorrer simplesmente porque ele incomoda. O que sobe demais acaba caindo, mais cedo ou mais tarde…