Depois do discurso otimista proferido na reunião anual de Jackson Hole do último fim de semana, onde Bernanke não economizou palavras para enfatizar os esforços do Fed no combate à crise e os seus resultados mais imediatos, Obama hoje anunciou a intenção de renovar o mandato do presidente do banco central americano. Embora a recondução de Bernanke ainda necessite da aprovação do Senado, a manifestação de apoio do Presidente veio em um momento importante, quando crescem as critícas à atuação de Bernanke e as pressões para que os poderes do Fed sobre o sistema financeiro não sejam aumentados, como prevê a proposta de reforma regulatória encaminhada ao Congresso pela atual administração.
É difícil exagerar a importância de garantir a continuidade no comando do Fed agora, a despeito das possíveis falhas cometidas pelo chefe do principal banco central global apontadas por certos analistas. Neste momento, em que recuperação é ainda incipiente e a recomposição dos mercados de crédito começa a despontar, não há espaço para a introdução de incertezas institucionais. Ao contrário, esta é a hora de reorganizar as bases do sistema financeiro americano, fortalecendo o arcabouço institucional, para que a retomada da atividade não seja apenas um soluço temporário, implicando na trajetória em W vislumbrada pelos mais pessimistas. Um pilar fundamental desta reorganização é a reforma regulatória proposta pela equipe de Obama, que prevê um novo papel para o Fed como regulador dos riscos sistêmicos, e que tem sido alvo de incansáveis críticas, tanto de políticos, quanto de outros reguladores do sistema financeiro americano. A proposta de Obama e as possíveis implicações para a nova arquitetura de regulação que poderá emergir da crise são o tema de um e-book recentemente publicado pelo Instituto de Estudos de Política Econômica – Casa das Garças (ver “A Reforma do Sistema Financeiro Americano: Nova Arquitetura Internacional e o Contexto Regulatório Brasileiro” em www.iepecdg.com).
O monitoramento adequado dos nódulos principais das redes de fluxos financeiros, previsto na proposta de reforma regulatória e necessário para controlar o grau de risco sistêmico evidenciado nesta crise, dificilmente poderá ser feito por outra instituição que não o Fed. Primeiro porque o banco central americano já é o regulador principal dos maiores bancos do país, acumulando, portanto, a experiência e os recursos para estender o seu mandato para as outras instituições não-bancárias cruciais para o funcionamento das redes financeiras. Segundo porque a primeira linha de defesa contra a falta de liquidez decorrente de uma crise é o arsenal à disposição do banco central, como mostrou a brutal expansão do balanço do Fed nos últimos meses. Parece adequado, portanto, que a autoridade monetária seja responsável pela supervisão direta daquelas instituições que ameacem a disponibilidade de liquidez do sistema, exigindo atuações agressivas do banco central. Por ter sido o principal formulador e gestor das medidas de assistência aos mercados de crédito nesta crise, Bernanke parece ser a pessoa mais indicada para ajudar a implementar estas mudanças fundamentais de foco regulatório, caso a proposta atual seja aprovada pelo Congresso, o que justifica o apoio tempestivo do Presidente Obama.
No entanto, não faltam críticas e manifestações de desagrado com o anúncio de hoje sobre o futuro do atual presidente do Fed. Em um artigo cáustico para o jornal Financial Times, Stephen Roach da Morgan Stanley argumenta que a recondução de Bernanke teria implicações desastrosas para a economia americana. O autor aponta três motivos básicos para isso: primeiro, Bernanke sempre defendeu o princípio de que a autoridade monetária não deve combater as bolhas especulativas, o que, segundo Roach, perpetuaria as potenciais vulnerabilidades que deram origem a esta crise. Segundo, como um dos proponentes da tese do “global savings glut” Bernanke exonerou os EUA da responsabilidade sobre os desequilíbrios globais que, se não precipitaram a atual crise, ao menos amplificaram os deslocamentos dela resultantes (isto é, a recessão decorrente da crise, por exemplo, poderia ser menor caso as famílias americanas não estivessem sobre-endividadas, o que levaria a uma correção menos acentuada do consumo). Por fim, Roach critica Bernanke por ter sido leniente na regulação das instituições financeiras e arremata argumentando que o Fed não será capaz de zelar pela estabilidade financeira do sistema, como prevê a proposta de reforma, caso o mandato da política monetária não seja alterado para incluir uma preocupação explícita com a ocorrência de bolhas de ativos.
Cabem certas qualificações a alguns destes argumentos. A posição de Bernanke em relação à condução da política monetária diante da possibilidade de bolhas de ativos não é que a autoridade monetária não deve agir preventivamente, como diz Stephen Roach. O que o atual presidente do Fed sempre enfatizou é que a taxa de juros é um instrumento bastante inadequado para estourar bolhas, pois seria necessário aumentá-la substancialmente para eliminar os excessos nos preços dos ativos, o que teria graves consequências sobre a atividade econômica – algo como matar uma mosca com um tiro de canhão. Isto, no entanto, não quer dizer que o banco central possa ignorar a possibilidade de estar alimentando bolhas futuras com taxas de juros excessivamente baixas por um período prolongado. A experiência pela qual passou a economia mundial nos últimos dois anos parece ter eliminado qualquer dissenso em relação à esta questão, o que implica que não há nenhuma inconsistência entre a maior vigilância com as bolhas (e a postura monetária para evitá-las) e a não-atuação direta da política monetária para estourá-las. Não parece, portanto, haver dissonâncias entre o papel do Fed como garantidor da estabilidade financeira e o mandato atual da política monetária nos EUA, como argumenta Stephen Roach.
Por outro lado, é difícil contrapor o argumento de que a tese do “global savings glut” tenha contribuído para a maior leniência das autoridades americanas diante dos riscos que estavam sendo semeados com a perpetuação do sobre-endividamento americano. A popularização desta tese parece ter sido o grande erro de julgamento de Bernanke no período que antecedeu a crise financeira atual. Mas isto não o desqualifica como policymaker habilidoso e pragmático. Sobretudo quando se leva em conta que nenhum economista foi capaz de prever, exatamente, como se desdobraria a crise. Nem mesmo Nouriel Roubini.
O instigante debate em torno da continuação de Bernanke está apenas começando. Resta torcer para que não se torne uma caça às bruxas capaz de reverter os ganhos de confiança recentemente reconquistados, sem os quais a (tímida) recuperação atual não será mais do efêmera.