COPOM: Mudança Imaterial
quinta-feira, 30 de julho de 2009A ata da última reunião do Banco Central divulgada hoje trouxe menos mudanças de cenário do que as interpretações preliminares da linguagem contida em alguns parágrafos (notadamente, o parágrafo 16, 18, 24,25 e 26) sugeriram. Dito de outra forma, o documento é consistente com a comunicação usual de fim de ciclo de flexibilização monetária, que na realidade já era esperado por todos. Fim de ciclo não significa que a autoridade monetária não possa encerrar o afrouxamento dos juros com uma última redução “residual” de 25 pontos na reunião de setembro. E muito menos que os juros não possam ficar parados por um bom tempo.
Há três referências na ata que podem ter passado a impressão inicial de que a autoridade monetária está marginalmente mais preocupada com a trajetória da inflação do que na reunião de junho. A primeira é a menção de que as projeções de inflação para 2009 e 2010 elevaram-se ligeiramente, embora continuem consistentes com o centro da meta. A segunda é a preocupação com as expectativas de inflação, que subiram um pouco apesar dos índices de preços continuarem a dar sinais claros de arrefecimento, como mostrou a deflação do IGP-M em julho. A terceira é a constatação de que alguns diretores discutiram na última reunião a possibilidade de parar em 9,25%, apesar da decisão de baixar a Selic para 8,75% ter sido unânime.
Das três, a última é a mais fácil de descartar. Afinal, seria no mínimo estranho se perto do fim do ciclo de flexibilização monetária o COPOM não estivesse discutindo a possibilidade de parar. Mais notável é que não houve divergência em relação à última redução dos juros, indicando a concordância em relação ao “espaço residual” de afrouxamento do qual ainda dispunha (ou dispõe) o COPOM. A elevação das projeções de inflação para este ano e para o ano que vem, embora dignas de nota, também são bem menos relevantes do que as interpretações preliminares poderiam sugerir. Como a política monetária age com defasagens consideráveis, não é razoável acreditar que o Banco Central altere o cenário dos juros com base nas revisões para a trajetória dos preços em 2009, dominada em parte pela inércia que caracteriza uma parcela importante do IPCA. Ou seja, as reduções observadas em alguns indexadores contratuais ainda não tiveram tempo de se manifestar plenamente no índice de preços ao consumidor. E a projeção de inflação de 2010, o horizonte realmente relevante para o COPOM, continua abaixo do centro da meta. A evolução um pouco desfavorável das expectativas observada nas últimas semanas, embora uma razão para a cautela do Banco Central, também não parecem justificar uma mudança na postura em relação à política monetária.
A mudança imaterial que estas referências constituem para as perspectivas do Banco Central ficam evidentes nas revelações de outros parágrafos. A ata sublinha o ambiente externo ainda extremamente incerto, a ampliação da margem de ociosidade da economia brasileira decorrente da crise, a continuação das perspectivas favoráveis para a concretização de um cenário inflacionário benigno, e as incertezas em relação à recuperação da economia brasileira, que ainda sustentam a contemplação de um cenário básico onde a inflação permanece contida mesmo diante da flexibilização monetária já implementada. Ou seja, no cenário de referência do Banco Central, os juros ficarão estacionados em um nível próximo ao do atual patamar por um bom tempo, o que é também consistente com a postura de maior cautela: aquela onde procura-se evitar reversões abruptas da política monetária no futuro a fim de sustentar a recuperação econômica nos próximos trimestres (parágrafo 25).
Nada que sugira, nem mesmo remotamente, que uma elevação dos juros está se delineando no horizonte.












