Porque os Chineses Têm Razão…
sexta-feira, 26 de junho de 2009Reza um provérbio chinês que dúvidas profundas são um sinal de grande sabedoria, enquanto a pouca sabedoria resulta de dúvidas superficiais. Por outro lado, como disse sabiamente o ex-Ministro Delfim Netto, citado hoje na coluna de Claudia Safatle do Valor, “existem três causas que levam à loucura: o amor, a ambição, e o estudo das taxas de câmbio”. Que isso seja válido para as moedas emergentes, tão suscetíveis às flutuações selvagens, poucos duvidam. Mas, aparentemente, passou a ser relevante também para o dólar, o que justifica o desconforto dos chineses.
Os questionamentos das autoridades chinesas acerca da sustentabilidade do dólar, que pareciam ter sido aplacados com a visita de Tim Geithner no início do mês, retornaram com vigor. O Banco Central da China divulgou hoje um relatório onde soa um claro alerta sobre a dependência global do dólar e as fragilidades da moeda norte-americana diante da deterioração dos balanços públicos e privados. É difícil contestar a sabedoria milenar chinesa (e a frase do ex-Ministro) quando se analisa a evolução recente daquela que ainda é a moeda de reserva internacional…
A crise financeira internacional revelou, de uma só vez, a ubiquidade das “leis de potência”, tão frequentes na natureza e tão ignoradas pela Economia. As leis de potência têm sido objeto de artigos para a Carta Galanto e posts para este blog desde que os mecanismos de crédito se romperam em setembro do ano passado. Para aqueles com menores inclinações estatísticas, estas leis dizem simplesmente que eventos “pequenos” são frequentes, enquanto eventos cataclísmicos são extremamente raros. A definição é quase um provérbio chinês, pela clareza, simplicidade e poesia. Ao contrário das distribuições da família gaussiana (a curva normal), onde os eventos raros são incapazes de influenciar a média histórica por serem de tão baixa probabilidade, a ocorrência destes eventos nos processos governados por leis de potência altera a interpretação do passado e impossibilita prognósticos sobre o futuro com uma margem de erro confortável.
Que as variáveis financeiras não são governadas por distribuições da família “normal”, exibindo os notórios “fat tails”, é algo que poucos questionam, embora muitos se confundam sobre as suas implicações. No entanto, a taxa de câmbio, sobretudo entre as moedas fortes, é comumente modelada a partir de distribuições com flutuações “brandas”. Isto é, antes da crise, e com base nas observações do passado, era difícil imaginar que o dólar pudesse desvalorizar-se mais de 4,5% contra o euro em um dia. Este era o padrão observado para as moedas de países emergentes, aquelas marcadas pelo “pecado original”. Contudo, em 24 de fevereiro de 2009 o dólar caiu 4,6% em relação ao euro, e cerca de um mês depois, em 19 de março, a moeda norte-americana desvalorizou-se outros 4,4%. Como mostram os gráficos abaixo, este não é o padrão de comportamento de uma variável governada por distribuições domesticadas, como o passeio aleatório tradicional (onde o erro é um ruído branco), e sim por distribuições bem mais selvagens.
A figura baixo mostra o comportamento da taxa de câmbio nominal dólar-euro desde 2004 (série vermelha) e de uma série artificialmente gerada (série verde) a partir da hipótese de que a variável segue um random-walk cujos erros (gaussianos) flutuam dentro de uma faixa de variação específica. A faixa utilizada é a que caracterizou o período entre 2004 e setembro de 2008, onde a volatilidade diária ficou no intervalo de -0,02 a 0,02 (ver figura 2). Como se vê, a hipótese de random-walk parece reproduzir bastante bem o comportamento da taxa de câmbio nominal, salvo a diferença de que a série artificial aparenta ter flutuações um pouco mais acentuadas. Será?
Figura 1

Figura 2

Figura 3

A diferença entre as duas séries, como fica evidente nos gráficos acima, é que enquanto a volatilidade da taxa de câmbio artificial é contida, a da série real não tem escala, como constuma acontecer com as variáveis que são governadas por leis de potência. O resultado é que os movimentos do dólar perante o euro (e outras moedas internacionais) tornaram-se particularmente imprevisíveis depois da ruptura observada no último trimestre do ano passado. O resultado é que já não é mais possível saber nem mesmo quais são as margens de erro a que estão sujeitas as previsões sobre o futuro da moeda norte-americana.
Ou seja, os chineses estão, sabiamente, esquivando-se da loucura.














