PPIP(ino)
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Na linguagem coloquial, um “Pepino” é um problema difícil de resolver, um “Abacaxi”. Quando anunciado em março deste ano, o PPIP (“Public Private Investment Program”), o plano do governo americano para livrar o sistema financeiro dos ativos tóxicos, foi muito bem recebido, apesar de alguns duvidarem da capacidade de implementá-lo. A julgar pelas notícias dos últimos dias, os céticos tinham razão.
Em um pronunciamento para a imprensa feito hoje, a Chairwoman do FDIC, Sheila Bair, pôs em dúvida a capacidade de operacionalizar o “Legacy Loans Program”, um dos pilares do PPIP. Segundo este programa, os bancos venderiam empréstimos problemáticos para compradores interessados, que beneficiariam-se de susbtanciais garantias do FDIC. No entanto, diante da perspectiva de que as regras do programa possam ser alteradas devido à ira dos políticos com Wall Street, Sheila Bair disse que os bancos e os potenciais compradores estão crescentemente relutantes em participar do esforço. Uma parte da resistência das instituições bancárias também deriva-se da melhoria geral dos mercados e do retorno de alguma confiança em relação às perspectivas para o sistema financeiro. Para completar, oficiais do Tesouro americano indicaram, segundo o jornal Wall Street Journal, que o outro pilar do PPIP, o “Legacy Securities Program”, poderá ser menor do que se imaginava pelas mesmas razões. Originalmente, o governo planejava livrar o sistema de cerca de US$ 500 bilhões de empréstimos podres e US$ 1 trilhão de ativos tóxicos securitizados através dos dois programas.
O quadro delineado pela dirigente do FDIC é preocupante, apesar do sucesso dos esforços de recapitalização bancária depois da divulgação dos testes de estresse no início de maio. A figura abaixo, extraída da notícia do Wall Street Journal, mostra o que está acontecendo com os empréstimos imobiliários com atraso superior a 90 dias. Como se vê, o montante saltou de US$ 30 bilhões no terceiro trimestre de 2008 para quase US$ 70 no início de 2009. Com o aumento do desemprego e a queda na renda das famílias, a perspectiva é de que a tendência de piora perdure nos próximos meses.

Diante deste quadro, os bancos têm aumentado substancialmente o provisionamento e os write-offs, mas isto não tem acompanhado a deterioração das carteiras. Segundo dados do FDIC, enquanto os write-offs aumentaram US$ 37,8 bilhões no primeiro trimestre, o montante de empréstimos com atraso superior a 90 dias aumentou US$ 59,2 bilhões.
Ao potencial “fracasso” do PPIP e às perspectivas de piora dos balanços soma-se a proibição do Fed, recentemente anunciada, de que os bancos utilizem suas projeções de receita nos próximos meses para cumprir as necessidades de capital identificadas nos testes de estresse. O Fed limitou em 5% o uso das receitas futuras para cobrir o montante de equity depois de constatar que alguns bancos, como o gigante Bank of America, estavam excessivamente otimistas nas suas estimativas. Embora o Bank of America tenha sido bastante bem sucedido no processo de levantamento de capital desde que os testes de estresse identificaram o tamanho do rombo no seu balanço, ainda faltam cerca de US$ 8,2 bilhões dos cerca de US$ 34 bilhões apontados pelos técnicos do Fed e do Tesouro. O banco esperava cobrir uma boa parte disso com as tais receitas futuras.
Depois do alívio generalizado com a divulgação dos testes de estresse e da euforia com o surgimento de alguns tímidos “brotos da recuperação”, os mercados desinteressaram-se pelos pormenores dos planos de reestruturação do sistema financeiro, cuja peça fundamental é o PPIP. Predomina a sensação de que com a melhoria do ambiente financeiro, os bancos estão mais bem posicionados para absorver perdas e manejar balanços. Esse cenário é coroado pela expectativa de que a economia americana comece a dar sinais de vida até o fim do ano.
Há algo faltando neste quadro encantador…



















