As Formigas e os Reguladores
terça-feira, 24 de agosto de 2010Nigel Franks, um biólogo especialista no comportamento das formigas legionárias, escreveu que esses insetos, individualmente, estão entre os seres vivos menos sofisticados do reino animal. Se um punhado de formigas deste tipo forem colocadas em cima de uma superfície lisa, elas marcham em círculos cada vez menores até morrerem de exaustão, ou inanição. Entretanto, se um número muito grande desses insetos se juntar, o grupo forma o que se chama em biologia de um “superorganismo” com “inteligência coletiva”. Algo semelhante ocorre nos sistemas financeiros modernos, com a complexidade que emerge das interações entre as instituições que os compõem representando um tipo de “inteligência coletiva”. É isso que os novos critérios de regulação financeira precisam reconhecer.
A nova lei de Frank-Dodd. que estabelece as diretrizes da reforma regulatória americana, reconhece explicitamente a importância do papel do risco sistêmico na ocorrência de crises financeiras, um marco importante para um sistema regulatório que sempre foi mais focado no papel individual das instituições (isto é, nas “formigas”). No entanto, apesar desse passo fundamental para a compreensão do funcionamento dos sistemas financeiros modernos, sobretudo do americano, a legislação apresenta duas deficiências fundamentais: por um lado, não há nenhum mecanismo proposto para mensurar e lidar explicitamente com as implicações do risco sistêmico; por outro, não há um reconhecimento de que além de instituições, mercados, como os de repo e os money markets, podem também ser sistêmicos. Essas deficiências fundamentais derivam-se da enorme dificuldade de estabelecer critérios para definir e medir o grau de complexidade dos sistemas financeiros. Usando a analogia das formigas legionárias, apesar da vasta literatura científica sobre o assunto, os biólogos não descobriram até hoje quais são os mecanismos que levam à emergência da “inteligência coletiva”. Se não entendemos os mecanismos do sistema, não temos como regulá-lo.
Essa frustração ficou também evidente nas discussões sobre as novas regras de Basiléia, entituladas de “Basiléia III”. A proposta original, recentemente diluída, previa três modificações essenciais: (i) uma definição mais rigorosa do que constitui o capital “tier 1” das instituições; (ii) novos requerimentos de liquidez para que as instituições tenham condições de se sustentar por 30 dias durante períodos de crise aguda; e (iii) o estabelecimento de um teto global de alavancagem para limitar a extensão do endividamento das instituições financeiras. Nenhum desses critérios aborda diretamente a questão da complexidade e do risco sistêmico, os dois fenômenos que emergem do comportamento agregado das instituições financeiras. De fato, Basiléia III ainda é essencialmente focada no comportamento e no risco individual de cada instituição. E como as formigas legionárias, as instituições individualmente não são representativas do comportamento agregado do sistema.
No seu “An Essay on Human Understanding”, o filósofo John Locke escreveu que as ideias compostas por várias ideias simples são complexas: a beleza, a gratidão, o universo, o homem, um exército. O sistema financeiro também faz parte dessa lista. Mas por enquanto os reguladores ainda correm o sério risco de serem devorados, mais uma vez, pelas ferozes formigas legionárias.
