Enquanto a Grécia se prepara para emitir 5 bilhões de euros em títulos, após o bem-recebido anúncio de novas medidas de ajuste fiscal equivalentes a 2% do PIB do país, não faltam especulações sobre a resistência do euro. Tanto acadêmicos de renome como Kenneth Rogoff, ex economista-chefe do FMI, quanto notórios especuladores como George Soros têm se mostrado pessimistas em relação à sobrevivência da moeda única européia, tendo em vista os problemas fiscais da região. Será?
O argumento dos euro-pessimistas, como Soros e Rogoff, não é novo. Ele baseia-se na decentralização fiscal da Europa, nas diferenças estruturais entre os países membros e na capacidade de ajuste de economias heterôgeneas que não dispõem de todos os intrumentos de política econômica para lidar com o monumental choque associado à crise financeira internacional. Na verdade, a visão dos pessimistas reflete um problema que todos já sabiam quando o euro foi criado: a Europa não reúne as condições necessárias para constituir o que na literatura acadêmica se chama de uma “zona monetária ótima”.
De acordo com a análise clássica de Robert Mundell (ver Mundell (1961) “A Theory of Optimum Currency Areas”, American Economic Review), vencedor do prêmio Nobel de economia de 1999, as seguintes condições definem um zona monetária ótima: (i) os países não devem ser influenciados por choques muito assimétricos, isto é, um país não deve estar substancialmente pior quando os outros estão indo bem; (ii) os mercados de trabalho devem ser flexíveis para ajustar a competitividade relativa via salários, uma vez que os realinhamentos não podem se dar através de ajustes na taxa de câmbio; e (iii) a política fiscal deve ser centralizada. A zona do euro nunca reuniu estas condições, e os seus arquitetos nunca guardaram ilusões sobre a possibilidade de um dia a região tornar-se uma zona monetária ótima, conforme define a literatura. No entanto, reconhecendo a necessidade de que os países convergissem suficientemente para aliviar as tensões associadas à perda de instrumentos de política econômica com o estabelecimento da moeda única, formularam-se os critérios do Tratado de Maastricht e do Pacto de Estabilidade e Crescimento.
O que a crise financeira internacional evidenciou foi que o tempo necessário para que a convergência suficiente fosse alcançada, impedindo a manifestação de efeitos muito assimétricos de um choque externo, foi subestimado pelos formuladores da união monetária européia. Como mostra a figura abaixo, as divergências entre os países da zona do euro foram substancialmente acentuadas depois da paralisação do crédito no fim de 2008. Mas mesmo antes da crise já era possível observar movimentos divergentes. Países como a Alemanha, que conseguiram avançar nas reformas estruturais, sobretudo no mercado de trabalho, foram capazes de melhorar o seu desempenho relativo, enquanto os países da periferia, depois do boom inicial com a adesão ao euro, passaram a ter de conviver com crescimento menor e inflação maior. É este o real drama da Europa: os 11 anos desde a criação do euro não foram suficientes para anuviar as tensões econômicas intra-euro originadas de um choque externo. E o choque externo, quando veio, foi cataclísmico.
Figura 1

Apesar disso, o pessimismo em relação à sobrevivência do euro é exagerado. O desmantelamento da união monetária ainda não interessa a ninguém, além do fato do euro não ser um projeto motivado apenas por razões econômicas. A Alemanha, país melhor posicionado para prover uma parte do financiamento de que a Grécia necessita, precisa dos países periféricos da zona do euro para manter os seus elevados superávits no balanço de pagamentos. Por esta razão, não é razoável supor que a principal economia da região não dará alguma assistência à Grécia e/ou aos demais países que precisarem de financiamento. Para a Grécia, o custo de sair do euro em meio a uma grave crise fiscal ainda é maior do que o de implementar um ajuste, mesmo que este seja draconiano. E sempre existe a possibilidade de recorrer ao FMI, embora esta tenha sido momentaneamente descartada pelo (fraco) argumento de que sinalizaria a incapacidade da zona do euro de resolver seus problemas sozinha.
O que esperar, então? No curtíssimo prazo, a perspectiva de uma emissão de títulos bem-sucedida na Grécia deverá acalmar os mercados. Mas não se pode descartar a hipótese de que a restauração do otimismo dos investidores seja apenas temporária, sobretudo quando se considera que o drama grego guarda desconcertantes paralelos com a crise argentina de 2001. Os problemas da Argentina, que culminaram no maior episódio de moratória soberana da história recente, derivaram-se da seguinte combinação perversa de fatores: (i) uma política fiscal insustentável; (ii) inflexibilidades no mercado de trabalho e nos salários, incosistentes com o regime de câmbio fixo; (iii) um brutal choque externo adverso (o 11 de setembor); e (iv) turbulência política. Déjà vu?
Não custa lembrar a cronologia da crise Argentina, antes da corrida bancária de 2001, que selou o destino do país. Os mercados começaram a questionar a capacidade de pagamento do governo no fim do primeiro semestre de 2001. Para ganhar tempo, as autoridades fizeram uma primeira operação de swap em julho, visando estender a maturidade de uma parte dos títulos com vencimento nos meses seguintes. A operação foi acompanhada da aprovação de uma nova lei de austeridade fiscal, que previa substanciais cortes no orçamento, sobretudo nos salários e pensões de funcionários públicos, para alcançar a meta de “déficit zero” para o ano. Nos meses seguintes, ficou evidente que o ajuste vislumbrado não poderia ser implementado dada a sua magnitude, que gerou protestos da população e mergulhou o país em uma severa crise política. Esses acontecimentos reascenderam os temores acerca do fim do regime de currency board, levando uma catastrófica corrida contra os bancos do país.
O que torna a Grécia diferente da Argentina é justamente o fato de pertencer à zona do euro, que faz com que o seu grau de comprometimento com a âncora monetária seja maior do que o da Argentina com o seu regime de currency board “latinizado”. Por enquanto, isso ainda parece ser o suficiente.