Vai sobrar, mais uma vez, para o Banco Central…
segunda-feira, 15 de março de 2010Houve uma época em que o Banco Central brasileiro, pressionado pela inconsistência entre uma política fiscal excessivamente frouxa e um regime de metas de inflação, se via obrigado a perpetuar as anomalias dos juros brasileiros a fim de evitar que a credibilidade da política monetária fosse comprometida. No entanto, depois que a reputação da autoridade monetária brasileira se consolidou e o mundo nos ajudou com uma expansão que beneficiou os indicadores fiscais, essa necessidade parecia ter ficado para trás. Até que o governo brasileiro (re)descobriu os bancos públicos…
Passados 18 meses desde a extraordinária paralisação do crédito de 2008, o mundo, e o Brasil em particular, parecem estar bem melhores do que se imaginava. Claro que incertezas consideráveis ainda dificultam uma visão clara sobre os cenários, mas ao menos hoje se pode afirmar que uma importante massa crítica de países está em pleno processo de recuperação econômica, graças às extraordinárias medidas de estímulo adotadas. No Brasil, estas medidas envolveram, entre outras coisas, o uso dos bancos públicos como instrumento de sustentação do crédito, a nossa versão do afrouxamento quantitativo. Com a forte retomada da atividade que vem se verificando nos últimos meses, esta medida já não é mais necessária. No entanto, o governo brasileiro gostou do “sucesso”, sobretudo porque este revelou uma potente arma para a campanha presidencial. A grande medida procíclica que acompanhará este ciclo eleitoral (e, quem sabe, marcará os próximos anos) será menos a frouxidão fiscal do que o impulso creditício das instituições financeiras do setor público.
Quais as implicações para a política monetária? Em um artigo para a próxima Carta Galanto, que será publicada em breve, analisamos o que as anomalias do crédito tanto nos EUA quanto no Brasil estão fazendo com os instrumentos tradicionais de política monetária. Nossa resultante revisão de diagnóstico sobre a inflação e os juros no Brasil não vêm de uma percepção de que a economia brasileira esteja superaquecida à la 2008, pois não acreditamos que este seja o caso, ainda. O que passou a nos preocupar e a dominar nossos cenários é a brutal distorção que os bancos públicos podem estar causando no mercado de crédito, com implicações importantes para o ritmo de expansão da demanda agregada. Evidenciando a relevância da expansão das carteiras dos bancos públicos para o debate sobre a trajetória dos juros no Brasil, o jornal Valor Econômico publicou hoje uma matéria destacando que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal não deverão repassar os possíveis aumentos da Selic para o custo do financiamento. Esta é uma receita certa para emperrar uma parte do chamado “canal do crédito” da política monetária, reduzindo a eficácia do potencial aperto monetário.
Como mencionei no início deste post, o papel “evangélico” do Banco Central reduziu-se substancialmente depois que as inconsistências entre a política fiscal e a política monetária se esvaíram, a partir de 2006. A figura abaixo ilustra o ponto, traçando a trajetória tanto da taxa de juros real no Brasil, quanto de sua tendência, calculada pelo filtro HP. Deste modo, foi possível convergir para níveis de juros mais “normais” para padrões globais, sobretudo depois da crise, no final de 2008.
Figura 1

Se o governo brasileiro compartilhasse a visão das autoridades de outros países sobre a necessidade de remover os estímulos excepcionais gradualmente, talvez a normalização dos juros brasileiros não fosse, mais uma vez, atropelada pela inconsistência da política macroeconômica. Mas, diante dos indícios de que o mais novo componente procíclico da política econômica brasileira veio para ficar, provavelmente voltaremos brevemente aos patamares de juros extraordinariamente elevados do passado. Ou seja, os cerca de 250/300 bps que muitos têm em mente como o orçamento total do provável aperto monetário poderão não ser suficientes para trazer a inflação de volta ao centro da meta no horizonte pretendido.










