“Desta Vez é Diferente”
terça-feira, 4 de maio de 2010Para quem ainda não sabe (será que sobra alguém nessa categoria?) este é o título do livro de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff sobre as crises econômicas lançado no fim do ano passado. A obra é um verdadeiro tour de force empírico, cobrindo os episódios de turbulência financeira dos últimos 8 séculos. A mensagem central do livro é que embora as crises sejam, como as famosas famílias infelizes de Tolstoy, diferentes nas suas causas, a dinâmica desses episódios tende a ser muito parecida. Primeiro, a euforia. Depois, a acumulação crítica de fragilidades. Por fim, a desordem, em maior ou menor grau. Aqui no Brasil, estamos passando pelo primeiro estágio dessa síndrome, e transitando rapidamente para o segundo.
Os que olham para o Brasil com lentes de gringo, o que inclui algumas das nossas próprias autoridades, acham isso uma atrocidade. Como é possível ser pessimista com as perspectivas brasileiras em um contexto global pontuado por fracassos? O Brasil passou por uma recessão suave, em termos relativos, e efêmera, depois de ter sofrido o maior choque global da história recente. Todos os dados apontam inequivocamente para um crescimento robusto, sustentado pelo aumento da renda das famílias, pela expansão do emprego e do crédito e pelo dinamismo industrial refletido nos últimos números divulgados pelo IBGE. É verdade que temos um grave problema inflacionário. Mas, hoje em dia, ter inflação é visto como algo positivo, um sinal da capacidade de reação da demanda agregada, o Santo Graal almejado por tantos países. E o Brasil de hoje está muito mais bem preparado para os ciclos de exuberância, racional ou não. Afinal, temos reservas, o resultado primário das contas públicas é (ainda) superavitário, reduzimos drasticamente a dívida externa, encontramos vastas jazidas de petróleo, temos um regime de taxas de câmbio flutuantes, e viramos um país investment grade. Para completar, ainda conseguimos nos beneficiar enormemente da mudança de eixo das cadeias produtivas mundiais, cada vez mais centradas na China e nos países asiáticos, com sua insaciável demanda por matérias-primas industriais.
Diante deste quadro, as possibilidades para a economia brasileira parecem não ter fim. O entusiasmo externo é crescente, sobretudo depois do agravamento da crise européia, que limitou ainda mais as opções de investimento globais. Mas é exatamente desta percepção de que o Brasil torna-se, por mérito próprio ou não, cada vez mais atrativo, que nascem os excessos. Os investidores estrangeiros compram ativos brasileiros com um frenesi equiparável ao de tubarões famintos quando avistam um suculento pedaço de carne. E os mercados domésticos, mesmo que parcialmente cientes dos exageros que já despontam no encarecimento de bens, ativos e serviços, preferem aderir à euforia com medo de perder o melhor da festa. Enquanto isso, o Ministro Mantega adiciona lenha ao fogo dizendo que “o Brasil já mostrou que pode crescer mais de 5%”. Mas gerar altas taxas de crescimento nunca foi um problema, como estão aí para mostrar alguns dos países europeus em apuros. O problema é sustentá-las, sobretudo em economias que não poupam e que dão pouca importância à educação. Nestes quesitos, o Brasil não está nada diferente.
O sobreaquecimento da demanda e a insuficiência da poupança já estão se refletindo nas contas externas brasileiras. Tanto o Banco Central quanto a maioria dos analistas projeta um déficit em conta-corrente próximo de 3% do PIB para este ano, mesmo levando em conta a melhora dos termos de troca brasileiros, que têm impedido uma deterioração mais forte da balança comercial. Por enquanto, todos julgam que este déficit será facilmente financiado, através da combinação auspiciosa de uma falta de alternativas para os investidores estrangeiros e das perspectivas de um crescente diferencial de juros entre o Brasil e o resto do mundo. No entanto, embora as condições iniciais do nosso atual ciclo de euforia sejam melhores do que as que caracterizaram ciclos passados, a porta de entrada para os problemas que podem nos atingir é, como sempre, o balanço de pagamentos.
A reação dos mercados hoje, depois de passarem as últimas 48 horas digerindo as implicações do programa com a Grécia anunciado no fim de semana e observando a revolta da população com as medidas fiscais impossíveis de se implementar, é um prenúncio do que pode vir pela frente. Não é preciso imaginar um cenário de esfacelamento do euro para traçar condições bastante adversas para o financiamento do balanço de pagamentos brasileiro. Basta que a desordem dos mercados e a falta de capacidade das autoridades européias para ficar à frente dos problemas continue a dominar o cenário mundial por tempo suficiente. Some-se a isso a possibilidade de que a China sofra uma desaceleração mais substancial da sua economia, afetando a evolução dos preços das matérias-primas e, portanto, os termos de troca brasileiros, e as condições estão dadas para movimentos abruptos do câmbio e das reservas brasileiras.
Talvez este não seja um quadro tão dantesco quanto o que já vivenciamos em outras ocasiões. Mas é suficientemente assustador para concluirmos que as diferenças são menores do que gostaríamos de imaginar.














