Recauchutagem
Sentiram o cheiro de borracha queimada? Viram a freada súbita, quase um cavalo de pau? Perceberam o desgaste dos pneus do calhambeque brasileiro? Ué, não era um Cadillac?
A economia brasileira parou de crescer no terceiro trimestre, conforme revelou o IBGE. O resultado já era esperado, apesar da profunda consternação, em destaque nas manchetes dos jornais. Afinal, o Ãndice de atividade mensal do Banco Central, o IBC-Br, já insinuara que uma brusca desaceleração da atividade teria ocorrido. O que “surpreendeuâ€, no entanto, foi a queda do consumo – a primeira desde o último trimestre de 2008, quando a economia global derrapou nas curvas sinuosas da montanha de dÃvidas, saiu pela tangente, e capotou. Por que o motor do consumo, logo ele, o carro-chefe do crescimento brasileiro nos últimos anos, engasgou agora?
Eis uma hipótese. O combustÃvel do consumo brasileiro nos últimos anos foi cuidadosamente processado nos laboratórios e refinarias do governo brasileiro. Optou-se por uma fórmula que misturava ingredientes do “Estado de Bem-Estar Social†da Europa – programas assistencialistas, transferências de renda, e benefÃcios generosos – à s medidas de incentivo ao crédito farto e barato, nos moldes do “modelo americano†de crescimento. A mistura recauchutada foi muito bem sucedida por algum tempo, ajudada pelos solavancos da economia mundial, cujo motor de arranque não engatava de jeito nenhum. Ainda bem. Pois foi isso o que impediu que a inflação, o dejeto quÃmico inevitável deste composto poderoso, deslanchasse de vez. Mas eis que as pressões sobre os preços das commodities no inÃcio do ano removeram as resistências inflacionárias da economia brasileira. Os preços subiram. Assustadoramente.
Preocupadas, as autoridades brasileiras voltaram aos laboratórios e resolveram diluir, consideravelmente, o crédito. Introduziram “medidas macroprudenciaisâ€, isto é, restrições quantitativas, enfraquecendo o combustÃvel brasileiro. A nova mistura do governo brasileiro foi responsável por um aumento gradual da entropia – do estado de desordem, de energia desperdiçada – nos reagentes reponsáveis pelo crescimento brasileiro. O pico dessa entropia, o seu efeito máximo sobre o consumo, veio no terceiro trimestre. Resultado: o consumo parou. O Cadillac foi para a oficina.
Insatisfeitos com o resultado, os mecânicos da equipe econômica tentam, rapidamente, recauchutar os pneus, reinstalar um motor flex, capaz de aceitar todo tipo de combustÃvel, desamassar e polir a lataria. Mas há um problema. Desta vez, dificilmente o desempenho do mundo esconderá a qualidade dos veÃculos do crescimento brasileiro. Seus motores são muito parecidos com os que afogaram com o excesso de combustÃvel das dÃvidas nas economias maduras. Consumo movido a crédito gera um aumento das obrigações financeiras das famÃlias, pesa nos orçamentos mensais, e, em algum momento, esses indivÃduos, abarrotados de dÃvida, já não conseguem mais comprar. Nem mesmo as geladeiras mais baratas, os fogões a um preço camarada, ou as máquinas de lavar digitalizadas, cheias de botões para apertar. Ainda que o governo tente dar aquele empurrão, para ver se o motor de arranque pega no tranco.
O resultado é que, como Roberto Carlos, entramos na oficina com um Cadillac, meio gasto, com alguns problemas na ignição, e estamos saindo com um calhambeque.
O calhambeque tem lá o seu charme. É cult. Encanta, sobretudo aqueles que não têm nem mais uma carroça para puxar suas economias. Mas é um veÃculo antigo, um carro usado. Anda devagar, enguiça à toa e o seu motor flex não funciona lá muito bem. Qualquer hora dessas pode acabar fundindo com o excesso de aquecimento inflacionário.
Não há de ser nada, pensam os donos do carango. Os problemas podem ainda demorar um pouco a aparecer. Até lá, o melhor é curtir o calhambeque, bi-bi.