As Lições de Angelina para o Brasil

(Publicação no O Globo a Mais de 21 de maio de 2013)
O anúncio de que a atriz americana Angelina Jolie removeu os seios para reduzir os riscos de contrair câncer de mama provocou um intenso debate sobre os limites da medicina preventiva. Angelina possui uma mutação genética rara que expõe o seu organismo a um risco muito elevado de desenvolver a doença. Embora a tolerância de cada um em relação ao risco e a opção por uma cirurgia radical não possam ser generalizadas, a lição do caso da atriz é que quando um problema é herdado, cirurgias invasivas e potencialmente desfiguradoras podem ser a única forma de controlar um legado maligno. Muito diferente é a situação em que o problema é semeado, autoinfligido, e em que a resposta reativa é distorcida e vendida ao mundo como medicina preventiva.
O expansionismo monetário exacerbado não é como a operação controvertida de Angelina Jolie. Ele não dilui os riscos que pairam sobre a economia global. Ele os faz migrar de modo errático. Ele afeta as cotações entre as principais moedas de reserva internacionais de forma quase imprevisível, ele infla preços de ativos diante da busca incessante dos investidores por rendimentos num mundo em que imperam as taxas de juros excepcionalmente baixas. Ele é uma reação ao baixo crescimento econômico, ou à ausência de crescimento econômico, que resultou do elevado ritmo de endividamento público e privado que predominou antes da crise de 2008.
Se no mundo há certa dose de complacência com os riscos que estão sendo criados e deslocados pelas ações inéditas que visam a resgatar as economias do marasmo, no Brasil não é diferente. As medidas usadas pelo governo brasileiro deixaram, há muito, de ser preventivas e passaram a ser francamente reativas. Contudo, é um reativismo errático e pessimamente articulado, sobretudo quando comunicado ao público. Isso ficou mais uma vez em evidência quando o Presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, defendeu enfaticamente o uso de ações tempestivas para conter as pressões inflacionárias no pronunciamento que fez no XV Seminário de Metas de Inflação. As pressões inflacionárias, ao menos as mais iminentes, já deram sinais de arrefecimento. E as ações da autoridade monetária brasileira foram tudo, menos tempestivas. Ao menos, até o momento.
A letargia nas ações para combater a inflação não tem passado incólume. Como revelaram os mais recentes indicadores do comércio, o consumidor brasileiro ficou mais recalcitrante diante da inflação resistente e reduziu as compras. Para um governo que ainda acredita que a demanda cria a sua própria oferta, isto é, que o consumo desenfreado das famílias é a chave para destravar o investimento das empresas, isso é um problema. Não é à toa que os discursos das autoridades quanto ao desempenho da inflação mudou nitidamente de tom. Ou seja, não é que inflação seja um “valor em si”, como já disse a Presidente. É que a inflação corrói a renda, a confiança e a capacidade de consumo das famílias brasileiras. Se assim continuar, será difícil sustentar o ritmo da atividade que parece ter sido relativamente bom no primeiro trimestre de 2013, de acordo com o índice de atividade mensal do BC, o IBC-Br. A alta anualizada de cerca de 4% (ou de 1,05% ante o quarto trimestre de 2012) foi cautelosamente comemorada pelo governo. Embora o Ministro da Fazenda não tenha escondido a sua satisfação com o resultado, ele preferiu enfatizar o PIB do povo – empregos e salários – como a real métrica do “bom” desempenho da economia brasileira. Afinal, a desconfiança de que o impulso do primeiro trimestre tenha vindo da extraordinária safra agrícola – algo que não se repetirá ao longo do ano – só será dirimida, ou não, no que resta do segundo trimestre.
Em meio às incertezas e aos desequilíbrios da economia brasileira, mais um risco veio se somar. As despesas do governo voltaram a crescer num ritmo frenético neste início de ano, cerca de 8% em termos reais. Com esse ímpeto de gastança, não há tempestividade monetária que resista. Tampouco há solidez fiscal que não sucumba.
Angelina Jolie herdou um gene defeituoso e, por causa disso, teve de fazer uma escolha das mais difíceis para diminuir o risco de sucumbir ao “Imperador de Todos os Males”, título do fabuloso livro do oncologista Siddharta Mukherjee. Enquanto isso, os gestores das políticas econômicas no mundo e, sobretudo no Brasil, brincam de geneticistas sem entender os mecanismos que acionam e travam no DNA das suas economias, os riscos que induzem e deslocam por aí afora.
A medicina preventiva tem lá os seus problemas. Mas poucas coisas são tão perigosas quanto as prescrições econômicas reativas, revestidas de um caráter preventivo falacioso, cujas consequências são completamente desconhecidas e imprevisíveis. Não está fácil ver como o Brasil melhorará em meio a tantos incentivos perversos e tantos exemplos nefastos provenientes das ações dos outros.







