O Regime de Metas para a Eleição
Há algo de podre na recente política econômica brasileira. As controvérsias em torno da capitalização da Petrobrás, os repasses ao BNDES pelo Tesouro através da antecipação de dividendos das empresas estatais para mascarar os efeitos sobre as contas fiscais, e as contempladas alterações na meta de superávit primário conforme prevê a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2011, são todos exemplos recentes da falta de compromisso do governo com a credibilidade institucional. Credibilidade esta que permitiu que o País atravessasse a pior crise financeira dos últimos tempos com tranquilidade. Será que acabaremos minando também a reputação do último bastião de seriedade econômica, o Banco Central brasileiro?
O regime fiscal de maior controle e transparência construído nos últimos 15 anos está sendo rapidamente desmontado nesse final de mandato do Presidente Lula. E como é cada vez mais provável que o próximo governo seja uma continuação menos pragmática e comprometida com os alicerces da credibilidade da política macroeconômica, não é possível descartar as manobras mais recentes como simplesmente temporárias, fruto do inevitável expansionismo pré-eleitoral. Ao contrário, os indícios são de que um possível governo da candidata Dilma Rousseff acelerará o processo destrutivo que se iniciou sob o disfarce de medidas de combate à crise financeira internacional.
Infelizmente, o mundo ajuda a mascarar esses retrocessos nefastos, e muito provavelmente continuará a fazê-lo no provável primeiro ano da candidata de Lula . As economias avançadas com seus balanços sobrecarregados e o debate sobre a política econômica global, empobrecido e frustrado pela falta de instrumentos monetários e fiscais para acelerar a redução do endividamento, implicam em perspectivas desanimadoras para o crescimento. Neste ambiente, sobressai-se o Brasil, com a vitalidade da sua demanda doméstica, tão almejada pelos países mais combalidos. E que não sobrem dúvidas: apesar da desaceleração constatada nos últimos meses, que abriram espaço para que o Banco Central brasileiro interrompesse o ciclo de aperto monetário, o nível de atividade e a absorção doméstica continuam “excessivamente saudáveis”, um oxímoro.
Cabe a alguém o benefício da dúvida? Talvez ainda reste um pouco ao Banco Central, apesar do último comunicado estranho, sugerindo que mesmo que a inflação sofra alguma elevação nos próximos meses, a política monetária está, por ora, adequada. De fato, como mostraremos em um artigo para a próxima Carta Galanto, o mundo mais fraco tem impedido que a combinação de um “efeito toyota” com um motorista que não quer frear desgoverne a economia. A questão é, até quando?
