A Flâmula Azul e o “Mar de Atlas”
Ao longo dos séculos XIX e XX, a “Flâmula Azul” fora um título internacional, hasteado no navio que cruzasse o oceano Atlântico em menor tempo. Neste ano diversos analistas, utilizando os mais avançados meios de comunicação, têm feito periodicamente esta jornada entre o Velho Continente e a América do Norte em busca do próximo desenrolar para a economia mundial. Conforme escrevemos no Blog Galanto (A Dívida dos Dois Lados do Atlântico), os problemas fiscais também atravessam o “mar de Atlas”, cujo nome vem do Deus da mitologia grega, comandado por Zeus a sustentar eternamente os céus.
Durante meses as atenções foram centradas em torno dos riscos soberanos na Zona do Euro. O downgrade desta semana do risco Irlandês pela S&P ilustra que a volatilidade ainda atinge a capacidade de determinados governos obterem financiamento para seus elevados estoques de dívida, gerando a necessidade de financiamento através do BCE ou de outras fontes. Os ajustes fiscais dos “PIIGS” são essenciais à manutenção do investimento privado e ao crescimento de longo prazo. Tais dilemas enfrentados por este grupo contrastam com a pujança da economia alemã, que cresceu 2,2% contra o período anterior, evidenciando desalinhamentos estruturais da moeda única. Restam ainda as incertezas sobre o desenho de um Fundo Europeu ou um sistema crível de metas fiscais, para socorrer ou evitar os recorrentes desvios, respectivamente (ver O Resgate Europeu vai Fracassar?) . É esperado que a zona, como um todo, cresça em média -0,54% em 2010 e 1,57% em 2011, conforme projeções do FMI.
Vale lembrar que também o Reino Unido, embora não esteja “preso” à Comunidade Europeia e ao Euro, depara-se com um balanço do setor público comprometido em um contexto de inflação elevada, atualmente em uma taxa anualizada de 3,1%, e é mais um exemplo empírico das ambiguidades que caracterizam o realinhamento das economias. Os ajustes fiscais planejados devem contribuir para reduzir o crescimento a 1,79% em 2010 e 3,37% em 2011, segundo o FMI.
Com a piora recente nos indicadores de atividade dos Estados Unidos, entretanto, as discussões voltaram o foco para a capacidade de recuperação da economia norte-americana. Muita atenção foi dedicada ao simpósio que ocorreu este fim de semana, realizado pelo Federal Reserve Bank of Kansas City no paraíso ecológico de Jackson Hole, Wyoming, construído por John D. Rockefeller. O encontro de macroeconomistas acadêmicos e banqueiros centrais - conforme já comentamos nos Blogs Galanto e Monica Baumgarten de Bolle (ver O Simpósio de Jackson Hole e Uma breve retrospectiva de Jackson Hole) – tem assumido um espaço relevante no cenário global, onde delineiam-se, nas apresentações e nas conversas de intervalos, aspectos importantes para as políticas econômicas nas próximas semanas.
Nas reunião de 2008, o chairman do Federal Reserve, Ben Bernanke, ressaltou as fragilidades que ainda eram presentes no sistema financeiro, apesar do título do simpósio sugerir que a estabilidade precisava apenas ser “mantida”. Ano passado, em meio à aparente melhora da atividade global, Bernanke reconheceu a capacidade de destruição dos cataclismas financeiros, eventos extremos que suplantaram os mais comuns modelos de risco. Hoje, no discurso “The Economic Outlook and the Federal Reserve’s Policy Response”, Bernanke destacou que a tarefa de recuperar a economia está distante do fim, dado que o desemprego e as condições de crédito não são animadores, embora tenha sido otimista quanto a 2011. Enfatizou a importância da coordenação da política econômica, não só aos Bancos Centrais mas também entre governo e o setor privado, e em termos gerais fez uma análise bastante em linha com o que foi destacado recentemente no Blog Monica Baumgarten de Bolle (O Princípio de Anna Karenina e a Política Monetária), qual seja, as heterogeneidades nos balanços dos diversos setores em meio ao processo de desalavancagem das famílias e insituições financeiras causando uma moderação na trajetória de atividade.
Quanto às estratégias para combater uma concretização dos riscos, dadas as restrições à contínua expansão do balanço público, que já passa por reajustes orçamentários e discussões quanto às reformas pendentes – o Small Jobs Business Act, o vencimento das isenções fiscais da era Bush e a reforma do mercado imobiliário, entre outras - Bernanke enumerou 4 opções: (1) conduzir compras adicionais de ativos de longo prazo. (2) modificar a forma de comunicação do comitê de política monetária, (3) reduzir os juros pagos às reservas excedentes, e (4) uma estratégia sem respaldo na tradição de pensamento do FOMC, aumentar as metas de inflação. A segunda, apesar de positiva, dificilmente traria garantias suficientes aos eventuais impulsos que se tornem necessários à retomada da atividade. A primeira tem riscos de não ser eficaz, ou, mesmo que seja, pode gerar questionamento quanto à posterior redução do balanço do Fed, aumentando o risco inflacionário. O controle da estabilidade dos preços, em linha com a tradição deste país, foi bastante enfatizado, e a quarta opção é praticamente descartada quando posta contra a credibilidade do Fed, muito embora ter sido elencada entre as hipóteses significa que há uma última carta na manga das autoridades monetárias – a senhoriagem.
As crises fiscais, diferentemente das crises bancárias ou de balanço de pagamentos, tendem a ser eventos crônicos, que podem arrastar-se por anos. As moratórias e/ou reestruturações, contudo, são relativamente raras. Embora as ameaças mais graves à recuperação, em um cenário onde as políticas fiscais e monetárias testam a exaustão (ou os “limites da legalidade”, como disse Paul Volcker), certamente sejam motivo para alarme, sabemos que países com moedas conversíveis e credibilidade institucional detêm uma margem de manobra maior para financiarem-se a médio e longo prazos – muito embora os países europeus não disponham livremente da política monetária, ou de uma política cambial unilateral.





