Nota sobre a Eficácia da Política Monetária[1]
Na última vez em que estive no Rio, ouvi uma frase bastante interessante do Zé Carlos (economista-chefe do Paineiras) que me disse ter ouvido essa de uma outra pessoa (cujo nome eu não me lembro agora). Disse ele que “mercado é novela de homem”. Pura verdade. Para citar alguns highlights só dos últimos 10 dias, no capítulo de quarta feira passada, o Copom manteve a Selic inalterada em 10,75% a.a. (ihhh!!!). No episódio de sexta, o PIB surpreendeu o consenso e cresceu 1,2% sobre o trimestre anterior (ehhh!!!). E no capítulo de ontem, uma grande revelação: a estimativa da taxa de juros neutra do Banco Central do Brasil é mais baixa que a da mediana do mercado (ohhh!!!).
Mas o objetivo dessa nota não é comentar o capítulo de ontem. Isso já foi feito de forma bastante extensiva por praticamente todas as casas, inclusive pela Monica (que aliás, muito bem notou que, apesar de todo mundo ter o direito de concordar ou discordar do cenário do Copom, o ponto positivo dessa Ata foi a maior clareza). O objetivo é chamar a atenção para um grupo de personagens dessa novela, cuja importância na trama ainda não é proporcional à atenção que ele recebe do público: as instituições públicas de crédito. Um gráfico e uma tabela resumem a relevância desses personagens.
Figura

A figura acima ilustra como a taxa de crescimento do volume de crédito real (deflacionado pelo IPCA) do sistema financeiro nacional é um importante determinante para a taxa de crescimento da formação bruta de capital fixo. Na verdade, seria mais preciso dizer que ela funciona como uma espécie de “limite superior”, que é uma característica comum a todas as políticas econômicas: quando elas são contracionistas, elas reduzem o produto de forma rápida, mas quando elas são expansionistas, o produto não necessariamente responde com a mesma eficiência (a atual situação dos EUA é um exemplo extremo dessa assimetria).
Em economias onde o sistema creditício é, em sua maior parte, privado, a autoridade monetária consegue afetar o crédito através da taxa de juros de curto prazo. Em economias mais controladas, onde é forte a participação do setor público nas decisões de crédito, a autoridade monetária tem menos poder. Dizem que, na China, o instrumento de política monetária mais eficaz não é a taxa de juros de curto prazo, mas sim o telefone. Quando o comitê central do Partido Comunista da China julga que a economia esteja se sobreaquecendo (desacelerando), eles telefonam para os bancos ordenando maiores restrições (facilidades) nas concessões de crédito. E sabemos que, na China, burocrata de bom senso não desobedece a uma ordem direta do comitê central do Partido Comunista.

E no Brasil, temos um sistema creditício predominantemente público ou privado? A tabela acima, uma cópia direta do Quadro XI da última nota para a imprensa de crédito, mostra que a resposta depende do ponto de vista. Se focarmos nos níveis, o sistema é predominantemente privado. No Brasil, mais da metade dos recursos tem origem livre, e as instituições creditícias privadas nacionais são praticamente tão importantes quanto as instituições creditícias públicas.
Porém, quando olhamos as derivadas, a resposta é outra. De dezembro de 2008 a julho de 2010, o estoque de crédito como proporção do PIB registrou um crescimento de 5,1%. Se desagregarmos essa variação de acordo com a origem dos recursos, notamos que apenas 1,3% corresponde a parcela com recursos livres. A maior parte, de 3,6% (há uma diferença na soma, provavelmente por conta de arredondamento), tem origem em recursos direcionados. E decompondo o crédito segundo o controle do capital, a resposta fica ainda mais clara: nesse período, as instituições privadas nacionais expandiram o estoque de crédito em 0,9% do PIB; as instituições estrangeiras tiveram sua participação reduzida em 0,5%, e todo o restante, de 4,6% do PIB, corresponde a instituições públicas.
Para ilustrar como derivada é importante, vale usar novamente a China como exemplo. Em termos de nível, seu PIB ainda está signficativamente abaixo dos EUA. Ainda assim, os preocupantes movimentos registrados nos preços relativos na primeira metade de 2008, especialmente nos mercados de commodities, são atribuídos ao fato do forte crescimento chinês ter representado a maior parte do crescimento do produto mundial (e, consequentemente, da demanda adicional por commodities) naquele período.
Ou seja, em pouco mais de 18 meses tivemos uma significativa mudança na importância relativa dos setores público e privado no canal de crédito, um dos mais importantes canais de transmissão de política monetária (junto com o canal das expectativas). Essa constatação gera diversas questões relevantes. Essa mudança é temporária ou permanente (combate à crise ou mudança de regime)? Se é permanente, ela é ou não desejável (optimalidade)? E como ela afeta o ambiente econômico, principalmente no que diz respeito à condução da política monetária?
Ao invés de discutirmos todas as questões acima, preferimos encerrar a nota tomando a mudança como permanente e analisando suas implicações para a política monetária. A primeira implicação mais imediata é a de que temos Copom-watchers demais e BNDES-watchers de menos. O presidente do BNDES começa a ser tão importante quanto o presidente do Banco Central do Brasil, pelo menos no que tange à política monetária. Isso quer dizer que interpretar os sinais vindos do Copom, qual o seu grau de conforto com a dinâmica inflacionária, qual a sua estimativa da taxa de juros neutra, o que ele deve fazer em 2011, etc… é apenas uma parte do conjunto de informação. Dada a relevância do comportamento do BNDES, a sociedade tem o direito de cobrar dessa instituição o mesmo esforço que o Banco Central do Brasil fez, desde a implementação do regime de metas, em direção à maior transparência sobre seus objetivos e estratégias, e de sua leitura da conjuntura econômica, através da divulgação periódica de publicações oficiais.
A segunda implicação diz respeito a eficácia da política monetária. Supondo que, apesar das mudanças, o Banco Central do Brasil permanecerá como o principal responsável pela condução (independente) da política monetária, será que o efeito da taxa de juros sobre as instituições creditícias públicas é o mesmo que o observado para as instituições privadas? A resposta é afirmativa apenas se as instituições públicas estão fazendo contas de risco-retorno. Se os objetivos são outros, é razoável supor que as operações de crédito desse setor sejam pouco sensíveis às variações na taxa Selic. Esse comportamento das instituições públicas pode afetar também o comportamento das instituições privadas, tornando-as mais inelásticas aos juros, na medida em que estas passem a ser preocupar não apenas com risco-retorno, mas também com a perda de market-share.
Enfim, nem sempre o aumento do estoque de crédito como proporção do PIB significa um aumento da potência da política monetária. Deve-se ter sempre em mente qual o personagem por trás desse aumento (público ou privado), qual a sua motivação (função objetivo) e se seu comportamento pode afetar o comportamento de outros participantes. Dependendo das respostas a essas perguntas, a conclusão pode ser a oposta.
Por fim, a última implicação diz respeito ao grau de harmonia com que BNDES e BCB irão operar. Se ambas instituições operarem sempre em sintonia, os efeitos negativos sobre a eficácia da política monetária podem ser corrigidos: quando o BCB freia (acelera) via o preço do crédito (juros), o BNDES freia (acelera) via quantidade. Porém, em conjunturas onde não há coordenação, onde uma instituição freia e outra acelera, o resultado da queda-de-braço pode gerar diversos equilíbrios, alguns ruins, outros piores. Em um equilíbrio ruim, o Copom terá que fazer sua política monetária prevalecer mexendo não apenas na Selic (preço) mas também nos compulsórios (quantidades). Já exemplos de equilíbrios piores podem ser facilmente encontrados em livros de história econômica, como nos capítulos que discutem a relação entre o Banco do Brasil e a SUMOC.
[1] Agradecimentos aos comentários da Monica Baumgarten de Bolle e do Felipe Tâmega Fernandes.



