Seminário PUC-Rio/FIRJAN
A Economia Brasileira e a Crise das Dívidas Soberanas
O Departamento de Economia da PUC-Rio organizou uma discussão sobre a crise grega e suas implicações para o Brasil. Neste post, resumo os principais pontos de minha participação no painel de encerramento da discussão. Os tópicos escolhidos atualizam essencialmente algumas ideias apresentadas em três artigos que publiquei recentemente no Estado de São Paulo, complementados pelo editorial e pelo artigo de Deborah Oliveira na Carta Galanto de Fevereiro.
A Crise Grega e suas implicações
Dionisio Dias Carneiro
19 de março de 2010
Parto da ideia de que a crise grega é grega, mas não é apenas grega, como tem ficado claro da atenção que ela despertou para o estado das finanças públicas em vários países e pelo renascimento dos temores de contágio.
1. A crise é grega porque resulta das escolhas dos gregos
Escolhas políticas inconsequentes feitas nos últimos 40 anos não produziram piores resultados em termos de inflação e crescimento porque alguns eventos favoráveis ao país permitiram adiar as piores consequências dessas escolhas. O evento mais notável foi a entrada da Grécia do clube do euro. Essa novidade estendeu o horizonte para correções das escolhas infelizes, mas sobretudo permitiu uma importante mudança da agenda dos socialistas. Ao admitir uma trajetória de maior liberalização da economia em troca das facilidades de financiamento propiciado pela Europa, puderam realizar obras públicas que atraíram investimentos em habitação e turismo. Mas a onda de obras públicas viabilizou também a corrupção “pan-helenico-socialista” que caracterizou o domínio político do PASOK, de Costas Smitis.
Outro evento foram as Olimpíadas. Uma receita adicional de 9 B de euros ajudaram o Balanço de Pagamentos mas não evitaram o prejuízo fiscal de 5% do PIB. Em 2004, os conservadores liderados por Costas Karamanlis sucederam os socialistas com uma agenda de privatização e combate à corrupção. Mas foram derrotados pela própria corrupção e pelos custos da agenda fiscal conservadora em meio à crise externa e tiveram de antecipar o final do mandato, convocando eleições gerais que marcaram a volta dos socialistas. Estes assumiram em outubro, com desemprego de 9,4% antes do desastre da dívida, tentando manter o modelo de crescer com maior despesa pública, quando já não havia quem financiasse.
O choque externo representado pelo encarecimento da dívida grega por falta de financiadores, como pode ser visto na figura 1, com a explosão do preço dos CDS, revelou a precariedade da construção por trás do Tratado de Maastrich. A chegada da crise representou más notícias para os eleitores-contribuintes, que elegeram Giorgio Papaconstantinou apostando em um milagre e para os financiadores privados que consideravam possível receber altos rendimentos com a dívida grega sem exposição ao risco de default.
Figura 1

2. A crise não é apenas grega porque vários países seguiram caminhos semelhantes
Por trás da crise grega, há algo mais geral: a hora da verdade quando se adota um modelo de crescimento sem poupança doméstica, que gera uma combinação de fatores conhecidos de alta explosividade: acumulação de direitos sobre renda futura, garantidos pelo Estado; aumento das demandas sobre bens públicos, cuja provisão requer pelo menos a supervisão do Estado; expectativas frustradas de crescimento das receitas. A estas consequências frequentes dos modelos de expansão baseado em direitos crescentes sobre os impostos futuros, adiciona-se o envelhecimento da população, fator de agravamento presente em vários outros países.
Em presença desses problemas estruturais a ocorrência de um choque fiscal chama a atenção para o risco de um aumento explosivo do endividamento público.
A Figura 2 e a Tabela 1, retirados do artigo de Deborah Oliveira, ilustram a semelhança do comportamento das dívidas públicas em vários países e o resultado nominal dos governos do G7.
Figura 2

Tabela 1

Finalmente, além dos problemas comuns a outros países, a controvérsia em torno das ações europeias voltadas para suprir as necessidades de financiamento da Grécia atinge uma repercussão que vai além do problema grego, porque explicitam divergências que perturbam as relações Alemanha/França, que formam espinha dorsal da união monetária.
Ao se constatar que a crise não é apenas grega, é natural que se busquem causas comuns, tais como:
- a liquidez global abundante que resultou da política monetária de Greenspan e das inovações financeiras que se propagaram nos anos 90 e a propensão dos gestores de carteiras a concentrarem-se nos riscos de curto prazo sancionam a irresponsabilidade fiscal;
- o desenvolvimento dos mercados de seguro contra default de crédito, e em particular sua generalização para os títulos soberanos, permitiu prolongar a confiança no uso das poupanças de longo prazo para financiar as dívidas públicas.
De fato, nesses mercados, os cálculos dos riscos levam a um comportamento pró-cíclico que se julgava ter sido superado quando o chamado “Jogo de Confiança”, bancado pelo FMI na crise asiática, foi substituído por um benchmark para a avaliação das políticas macroeconômicas sob a auditoria dos que ficaram conhecidos como “bond vigilantes”, os analistas e players do mercado de renda fixa onde são transacionadas as dívidas públicas e privadas em todo o mundo.
O resultado é desastroso, pois ao contrário das expectativas, a prociclicalidade do FMI foi substituida pela prociclicalidade dos mercados privados. Isso é parte da decepção admitida por Alan Greenspan quanto à capacidade de autocorreção dos mercados privados.
3. Há risco de um contágio semelhante ao que ocorreu na crise asiática de 1997-98?
Recordando as caracteristicas básicas do contágio asiático, deve-se lembrar que a crise começou com a Tailândia, onde uma onda de financiamento imobiliário (principalmente imóveis comerciais) foi a consequência de um boom de investimentos estrangeiros na esteira da transferência da produção de produtos eletrônicos para a Tailândia, a exemplo do que ocorreu em vários países, em parte motivada pelas incertezas futuras quanto ao que ocorreria com Hong Kong depois da devolução da colônia inglesa ao governo chinês. Quando ficou claro que o governo tailandês financiava uma posição de reservas graças a empréstimos de curto prazo, ocorreu uma fuga do baht, e uma depreciação súbita da taxa de câmbio.
O fenômeno chamou a atenção para características macroeconômicas comuns a outras economias, caracterizadas por um crescimento elevado baseado em financiamento crescente para o déficit em conta-corrente. A um nível mais profundo, desconfiou-se da sustentabilidade a longo prazo do crescimento elevado baseado na incorporação de fatores de produção. O financiamento abundante apoiava-se em análises favoráveis do FMI e do Banco Mundial, mas com a complacência dos mercados privados. Ao explodir a crise em vários países, verificou-se que a posição fiscal dos países envolvia déficits implícitos e fortes descasamentos de prazos.
Os mercados concluíram que não havia innocent by-standers, mas na realidade um conjunto de países que se aproveitaram de condições favoráveis para acelerar o crescimento com endividamento externo crescente.
No caso atual, os riscos de contágio envolvem os demais países europeus (em especial os demais PIIGS) cujos governos se beneficiaram da euforia de investimentos públicos e privados na esteira da confiança permitida pelo projeto de longo prazo de integração econômica européia, cujo símbolo mais importante era o sucesso da união monetária em produzir uma moeda com crescente confiança internacional.
Um fator de agravamento da situação desses países é que os dilemas fiscais e monetários provocados pela crise de 2008-2009 nos países líderes foram decididos pela maior tolerância com déficits e menor risco sobre os sistemas bancários, ainda não cicatrizados das feridas causadas pela crise bancária nos dois lados do Atlântico.
4. Quais as principais consequências para o Brasil?
Talvez a consequência mais importante, já que os efeitos diretos sobre o balanço de pagamentos são secundários, enquanto a China conseguir manter-se como o importador de última instância para o mundo em geral e para os exportadores de matérias primas em particular, seja a perspectiva de mudança dos vigilantes, sejam oficiais, como o FMI, sejam os privados, no sentido de exibirem maior tolerância com a inflação e com a administração da taxa de câmbio.
Recentemente, volta a ter respeitabilidade, junto com a onda protecionista que ameaça vários países ricos, o recurso ao controle dos fluxos de capitais e a administração da taxa de câmbio. Para o Brasil, isso é música para os ouvidos de muitos políticos e economistas, a exemplo do que ocorre em vários outros países emergentes. Em consequência, a médio e longo prazos aumenta a vulnerabilidade desses países a políticas populistas, na medida em que estas passam a ser indistinguíveis de politicas de “legítima defesa”.
5. Natureza e as causas das fragilidades das nações
Esta experiência da crise grega, especialmente com os desdobramentos sobre os quais pudemos oferecer rápidas pinceladas, chama a atenção para as múltiplos fatores que causam a fragilidade financeira das economias. Essa fragilidade se manifesta quando há interrupção do crescimento por ruptura das fontes de financiamento, sejam públicas, multilaterais ou privadas.
Certamente, uma lição é que a oferta de financiamento interno vs externo não é um dilema tão importante quanto parecia há alguns anos atrás, quando se acreditava que o financiamento externo era elemento disciplinador dos governos (o balanço de pagamentos sufoca os governos gastadores) e o financiamento interno para a dívida pública seria um elemento de proteção do país contra crises de default provocadas por encolhimentos súbitos da liquidez internacional.
A experiência dos países europeus mostrou que prêmios de risco baixos, especialmente os causados por fatores que não tem nada a ver com o que acontece nos países, dificultam o enrijecimento da restrição orçamentária. Talvez a verdadeira rigidez das contas públicas tenha de ser gerado por liderança ou por fatores exógenos de difícil mudança, como as limitações de ordem constitucional.
Uma dificuldade com os mercados privados como elemento disciplinador dos governos é que eles costuma tornar-se “especulativos” antes de se tornarem “corretivos”. O que faz com que os mercados globais não sejam bons vigilantes.
Finalmente, uma lição que pode ser valiosa para o Brasil é que a política monetária pode ser insuficiente para reduzir a vulnerabilidade estrutural da economia. O embate entre as forças de independência monetária e autonomia fiscal aumentam os riscos de dominância fiscal.
6. Algumas conclusões
• A combinação de mercados procíclicos com governos procíclicos torna expansões mais prolongadas e fins mais penosos.
• A Grécia não é exceção. Apenas encontrou na crise e nas eleições um obstáculo que interrompeu na prática uma trajetória insustentável.
• As implicações para países como o Brasil são bem visíveis, não necessariamente da crise mas dos mecanismos de “resolução”.
A Cruzada contra especuladores financeiros abre uma perigosa oportunidade para retrocesso na mobilidade de capitais e no custo do capital. Nesse particular, não se deve esquecer que com alta probabilidade, o Brasil de 2010 é um alvo especulativo e que portanto, a euforia pode dar lugar a uma parada súbita das