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Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010
Monica Baumgarten de Bolle
ORIGINAL POST
Monica Baumgarten de Bolle
Título:
De PIBÃO para PIBinho
10.03.09 11:59 am Refletindo a forte queda da atividade industrial no último trimestre do ano, o PIB brasileiro sofreu uma contração de 3,6% no quarto trimestre, em linha com as nossas estimativas, que previam uma retração de 3,2%. Todos os componentes do PIB pela ótica da oferta sofreram reduções na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Excetuando-se os gastos do governo, o mesmo se deu pelo lado da demanda, com destaque para a formação bruta de capital fixo, cuja variação negativa foi de 9,8%. Com este resultado, o chamado “carrêgo estatístico” ficou negativo em pouco mais de 1%, o que significa que se a economia permanecer estagnada durante todo o ano, já temos uma contração “garantida” de cerca de 1%, em linha com as projeções de crescimento para 2009 que divulgamos há pouco mais de 1 mês.
Figura 1
A combinação desse resultado para o PIB do quarto trimestre com a contração da indústria em janeiro, divulgada na semana passada, reduzem substancialmente o “brilho relativo” do desempenho brasileiro desde o agravamento da crise no fim do ano. É verdade que não sofremos a dinâmica perversa usual dos choques externos, com fugas de capital, fortes desvalorizações, e disparada do prêmio de risco, que vitimizou outras economias emergentes, como a Rússia e demais países do Leste Europeu. De fato, apesar do real ter acumulado uma desvalorização de pouco mais de 40% desde agosto de 2008, em linha com o que ocorreu com outras moedas emergentes, a partir de dezembro a moeda brasileira “descolou-se” das demais (tabela 1). O bom desempenho reflete (ao menos em parte) a expectativa de uma melhor evolução relativa da economia brasileira diante da constatação de que o país não sofrera os piores reflexos da crise financeira internacional.
Tabela 1
Entretanto, se os velhos fantasmas das crises cambiais foram afastados pelas melhorias na condução da política econômica, há importantes vulnerabilidades, reveladas pelo colapso do comércio mundial. A crise evidenciou o crescente grau de interconexão da economia brasileira às redes de produção mundiais, o que significa que o destino do setor real está inexoravelmente atado à evolução da atividade global. E as perspectivas não são boas. O Banco Mundial anunciou nos últimos dias que revisará suas projeções para o crescimento global, que deverá ser negativo pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. Nouriel Roubini disse recentemente que a recessão americana deverá durar cerca de 36 meses, ou pelo menos mais um ano, já que estamos no 15º mês da recessão.
Neste contexto, as discussões sobre a recuperação da economia brasileira parecem prematuras e um tanto ingênuas. Há muita confusão no que cada um entende por recuperação, e nem sempre fala-se da mesma coisa quando surgem especulações sobre a duração da crise externa e seus reflexos sobre o Brasil. O que é evidente é que quando há fortes quedas nos níveis das variáveis macroeconômicas, os novos patamares passam a ser relevantes. Com as quedas de dezembro e janeiro, a indústria voltou aos níveis de meados de 2004; com a contração do último trimestre, o PIB retornou ao nível do primeiro trimestre do ano passado. Se a definição de recuperação for o retorno aos níveis observados antes do agravamento da crise internacional no fim do ano passado, temos um longo caminho a percorrer.
Quais as implicações para a política monetária? Nos últimos meses, temos defendido a visão de que diante do choque sem precendentes, justifica-se uma flexibilização mais intensa e veloz dos juros. A brusca redução do grau de repasse cambial, que abordamos recentemente neste blog e que é tema de um dos artigos para a próxima Carta Galanto, abriu espaço para um maior ativismo do Banco Central sem comprometer imoderadamente a trajetória de inflação. Embora a queda do repasse esteja fortemente influenciada por fatores conjunturais, é improvável que o coeficiente retorne aos patamares anteriores em um horizonte de tempo que prejudique as perspectivas para a evolução da inflação este ano. Neste sentido, esta é uma ocasião oportuna para certificarmo-nos de que a economia brasileira consegue conviver pacificamente com juros reais mais “normais” para parâmetros internacionais.
Mas há riscos. O maior deles é o de que o Banco Central seja percebido como excessivamente leniente, desestabilizando o prêmio de risco e desfazendo os ganhos de credibilidade no combate à inflação. Uma piora na percepção de risco certamente aumentaria as chances de sofrermos a dinâmica típica das paradas súbitas de capital, que já vitimizou vários países emergentes durante esta crise. E a perda de credibilidade institucional teria consequências desastrosas para a estabilidade macroeconômica futura. Por estas razões, os cortes de juros mais agressivos são menos óbvios do que parecem. Minimizar estes efeitos é um privilégio de quem dirige o carro do banco de trás.
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