Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010

Monica Baumgarten de Bolle





ORIGINAL POST

Monica Baumgarten de Bolle
Título:

As Voltas que o Mundo Dá...


27.03.09 3:27 pm
“O Tesouro Defende a Criação de Bancos Gigantes”. Esta foi uma das manchetes do jornal New York Times do dia 7 de junho de 1987, pouco antes de Alan Greenspan se tornar o novo Presidente do Fed e antes do histórico crash da bolsa em outubro. Tendo em vista os acontecimentos da semana, sobretudo o anúncio dos detalhes do Programa de Investimento Público-Privado e a definição das diretrizes para a reforma regulatória, é curioso ver como pensavam as autoridades norte-americanas há duas décadas atrás. Com a palavra, um Alan Greenspan 22 anos mais jovem, mas, ao que indica a sua coluna de hoje no FT, não menos “ingênuo”...

“Eu não tenho medo de uma concentração exagerada no setor financeiro”, disse Greenspan em 1987. De acordo com a matéria do New York Times, o futuro chefe do Fed defendia mudanças na legislação bancária que permitissem que os bancos comerciais expandissem suas operações para competir com a Europa e o Japão, cujas instituições financeiras haviam superado as norte-americanas em importância global. Mas, diz a reportagem, o futuro “Maestro” achava que apenas aumentar o tamanho das instituições não seria suficiente. Ele era, portanto, favorável à remoção das barreiras que impediam que instituições não-bancárias fossem donas de bancos, o que o então Presidente do Fed, Paul Volcker, opunha ferozmente. Tais barreiras haviam sido estabelecidas pela lei de Glass-Steagall de 1934, e pela lei de que definia as regras para as Bank Holding Companies, de 1956. Na época, o sub-Secretário do Tesouro George Gould defendia publicamente a ideia de que os EUA deveriam ter de 5 a 10 “super-bancos” para competir “em pé de igualdade” com as maiores instituições na Grã-Bretanha, França, Alemanha, e Japão. Os japoneses eram particularmente temidos, pois além de ter 14 bancos na lista dos 25 maiores, as 4 instituições no topo da lista pertenciam ao país. Sabemos como isso acabou.

Na seu artigo de hoje, Greenspan diz que “os novos desafios regulatórios que enfrentamos devem-se ao fato de algumas instituições terem se tornado grandes e complexas demais. Este status confere a estas instituições o poder de distorcer os mercados”. E arremata com “a solução é introduzir requerimentos de capital graduados para desencorajar o crescimento exacerbado das instituições e frear suas vantagens competitivas”. Ora, ora. Quem te viu, quem te vê.

Em 1987, o Tesouro e o futuro Presidente do Fed também defendiam mudanças nas regras para permitir a participação das instituições bancárias nos mercados de ativos securitizados e de outros produtos financeiros. Sem regulação. Em contrapartida, as diretrizes regulatórias traçadas ontem por Tim Geithner prescrevem exatamente um maior grau de supervisão e controle destes mercados, para impedir que excessos como os que causaram a crise atual possam ocorrer novamente. (Não sem custos, como discuti no post de ontem).

No artigo de hoje, Greenspan faz a seguinte observação: “não precisamos acelerar despropositadamente as reformas, pois os mercados privados já estão impondo uma restrição às operações financeiras maior do que qualquer medida regulatória seria capaz de fazer”. Talvez o livro de memórias lançado em 2007 devesse ter sido entitulado “A Era da Inocência”, como a obra (de ficção) de Edith Wharton, vencedora do Pulitzer Prize de 1921.





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