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Terça-Feira, 07 de Setembro de 2010
Monica Baumgarten de Bolle
ORIGINAL POST
Monica Baumgarten de Bolle
Título:
Complexidade Vs. Estabilidade
26.03.09 5:13 pm A semana, até agora, está sendo muito positiva para o Secretário do Tesouro Timothy Geithner. Depois do furor com que os mercados receberam o Programa de Investimento Público-Privado, foi a vez dos políticos aplaudirem as novas diretrizes pra a reforma regulatória do sistema financeiro, cujo objetivo principal é protegê-lo futuramente de devastações como a atual. O esforço de prevenção das autoridades é fundamental para a operacionalização do Plano de Estabilidade Financeira. Afinal, o apetite (se ele existe) dos investidores privados pela “herança maldita” depende de como funcionarão as regras do sistema daqui para frente. Mas há uma outra questão relevante: quais serão as características essenciais deste novo sistema?
As diretrizes traçadas por Geithner no discurso de hoje enfatizam os seguintes pontos:
1. O estabelecimento de um regulador independente com responsabilidade sobre firmas sistemicamente importantes e sobre o sistema de pagamentos.
2. A elaboração de critérios mais rigorosos para o grau de exposição ao risco e para o nível de capital de firmas sistemicamente importantes.
3. O registro obrigatório de todos os hedge funds acima de um determinado tamanho.
A legislação americana não requer que hedge funds ou outros fundos privados de capital tenham de se registrar com o regulador financeiro.
4. A formulação de um arcabouço de supervisão para os mercados de derivativos de balcão.
5. O estabelecimento de novos requerimentos para os fundos de money market para reduzir o risco de liquidez.
6. O fortalecimento do mandato de resolução de crises para proteger o sistema das falências de instituições complexas.
Esta diretriz prevê poderes mais amplos para o Secretário do Tesouro e o FDIC na escolha entre a provisão de assistência financeira para uma instituição sistemicamente importante ou a intervenção com ou sem liquidação (Conservatorship/Receivership – eufemismos legais para nacionalização).
A premissa fundamental das novas diretrizes é que o foco regulatório deve ser sistêmico e não institucional. Isto é, o novo arcabouço de supervisão e regulação do sistema financeiro deve concentrar-se nas interconexões da rede de fluxos financeiros, e não apenas nas instituições que a compõem. Este é um enfoque bem-vindo, pois como temos argumentado exaustivamente, esta crise expôs a necessidade de entender como funciona o emaranhado abstruso dos fluxos de crédito. Entretanto, o objetivo principal da reforma regulatória é reduzir a complexidade do sistema para aumentar a sua estabilidade, e isso trará custos.
A grande complexidade do sistema financeiro americano permitiu, antes da crise, uma enorme capacidade de criação de liquidez endógena. Isto é, o alto grau de complexidade da rede financeira possibilitou a existência de um elevado multiplicador do crédito, o que irrigou a economia e permitiu as altas taxas de crescimento observadas durante um grande período. Com o desmantelamento desta rede, o multiplicador do crédito entrou em colapso (figura 1).
Figura 1
O plano regulatório de Geithner pretende que o novo sistema financeiro que nascerá das cinzas do atual seja menos complexo e mais estável do que anterior. Ora, o custo imediato disso será uma menor capacidade de criar liquidez endogenamente, o que poderá comprometer a trajetória de crescimento futura. Isto é, há um trade-off não-trivial entre estabilidade e complexidade: com um sistema mais estável porém menos complexo ficará difícil replicar as trajetórias de crescimento que vigoraram antes da crise.
As diretrizes anunciadas hoje trazem um outro elemento relevante para o futuro imediato. A ampliação do mandato para a resolução de instituições sistemicamente importantes (o item 6 acima) prepara o terreno para as possíveis estatizações que poderão ainda ser necessárias na solução desta crise. Uma vez concluídos os testes de estresse dos balanços e dependendo do resultado dos leilões da “herança maldita”, a necessidade de um plano para as instituições insolventes tornar-se-á premente. Sem um arcabouço definido, corre-se o risco de uma nova quebra desordenada à la Lehman Brothers, ou da manutenção de bancos zumbis à la Japão.
Albert Einstein disse uma vez que “qualquer idiota inteligente pode tornar as coisas maiores, mais complexas, e mais violentas, mas requer genialidade e coragem ir na direção contrária”. Pode ser. Mas a genialidade e a coragem têm um preço.
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