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Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010
Monica Baumgarten de Bolle
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Monica Baumgarten de Bolle
Título:
A Economia Global e o Brasil
12.03.09 2:10 pm Li hoje no jornal que o homem que vivia desde a semana passada com dois corações morreu na manhã de ontem. O objetivo do raro transplante era que os dois corações inicialmente dividissem funções: com o orgão antigo e doente ficaria a tarefa de bombear o sangue no organismo, enquanto o orgão transplantado alimentaria os pulmões. Apesar das expectativas otimistas, porém cautelosas, da equipe médica diante da boa reação inicial do paciente, seu organismo não resistiu. O óbito resultou da “falência múltipla de orgãos”. Há um paralelo desconcertante entre o trágico desfecho deste caso e o que está acontecendo com a economia mundial.
Desde outubro do ano passado, o sistema financeiro internacional sobrevive com dois corações: os bancos moribundos nos EUA e na Europa, sendo sustentados com recapitalizações a conta-gotas e garantias insuficientes, bombeam debilmente os fluxos financeiros; os bancos centrais, sobretudo o Fed, inflam os seus balanços numa tentativa de prover oxigênio para uma economia asfixiante. Estes esforços não estão impedindo o colapso dos orgãos vitais para o funcionamento da economia mundial. O comércio internacional está agonizante, o que refletiu-se em fevereiro na queda de 26% das exportações chinesas, consistente com uma redução de 90% no saldo comercial do país. O Presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, acaba de dar uma entrevista onde revelou que as próximas revisões do organismo para o crescimento mundial devem mostrar uma retração da atividade global de 1 a 2%, o pior desempenho desde a Segunda Guerra Mundial. Em dezembro de 2008, a instituição ainda projetava um crescimento de 0,9% para este ano. O diretor-gerente do FMI já fala em “Grande Recessão”, declarando que as projeções de estagnação global em 2009 feitas pelo organismo multilateral em janeiro ficaram “muito otimistas”.
Em um artigo para a próxima Carta Galanto, discutimos as prováveis implicações da ausência de uma resolução definitiva para a crise bancária para a evolução do PIB americano e do comércio mundial nos próximos 3 anos. Nossa análise aponta para níveis muito deprimidos destas variáveis nesse horizonte, o que tem consequências importantes para os mercados de matérias-primas e para o planejamento das empresas. No caso do comércio mundial, por exemplo, concluímos que a soma das exportações e importações globais pode demorar cerca de 2 anos e meio para retornar aos patamares de 2005, o que representa um nível duas vezes inferior ao que teria sido alcançado caso não tivéssemos passado pelos exageros recentes e pela crise financeira internacional. É um cenário assustador.
O tamanho do hiato entre as diferentes trajetórias para o comércio mundial, com e sem crise financeira, ilustra a perda de demanda por produtos de exportação, sofrida pelos países cujo dinamismo recente foi viabilizado pelo extraordinário crescimento do comércio mundial. O Brasil foi um desses países, o que explica a violenta recessão industrial que acabamos de constatar nas últimas divulgações do IBGE. Com base nestas evidências, a maioria dos analistas já considera a possibilidade de que a atividade se contraia esse ano, enquanto o governo continua a agir como o proverbial avestruz, enterrando o rosto para não enxergar a realidade. Apesar disso, a gravidade do quadro foi sancionada pelo corte de 1,5 ponto percentual do COPOM, que embora antecipado pelo mercado nos últimos dias, não deixa de ser um fato momentoso. Foi a maior redução desde dezembro de 2003, resultando no retorno da taxa de juros aos níveis de mais de 20 anos atrás.
A ação do Banco Central, até agora um guerreiro solitário no combate à crise, dificilmente será uma barreira contra a “marola” de 30 metros de altura que se ergueu no horizonte. Os adeptos do surf radical, aqueles que enfrentam ondas gigantescas no meio do mar, contumam ser rebocados por jet-skis até o ponto ideal para descer o paredão de água, o que diminui o sempre presente risco de afogamento. O governo não está cumprindo o seu papel de reboque da economia brasileira, o que significa que continuamos remando para um belo caixotão.
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