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Terça-Feira, 07 de Setembro de 2010
Monica Baumgarten de Bolle
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Monica Baumgarten de Bolle
Título:
A China e as Esperanças Efêmeras
05.03.09 5:08 pm A alegria durou pouco. Depois do entuasiasmo de ontem, foi anticlimático o discurso de Wen Jiabao na reunião anual do Partido Nacional do Povo em Beijing. O Primeiro Ministro chinês não introduziu novas medidas de estímulo fiscal como muitos esperavam, limitando-se apenas a enfatizar as intenções de atingir a meta de crescimento de 8% neste ano, que a despeito do agravamento da crise internacional, ainda considera atingível. Apesar da decepção causada pela ausência de novas medidas, há indícios (débeis) de que a desaceleração da economia chinesa tenha se atenuado nos primeiros dois meses do ano. E o governo chinês dispõe de um amplo espaço fiscal para implementar um novo estímulo caso a economia não reaja como se anseia. Mas ainda assim fica a dúvida: taxas de crescimento entre 6 e 8% na China são suficientes para “sustentar” o resto do mundo?
Primeiro, é útil definir o que significa “sustentar” o resto do mundo. Certamente não é, a estas alturas, a idéia de que a China seja capaz de manter a economia global crescendo às taxas verificadas nos últimos anos. Como tornou-se evidente no último trimestre de 2008, a China não está desacoplada do resto do mundo, muito pelo contrário. Em razão do colapso da demanda externa e do comércio mundial nos últimos meses, a corrente de comércio chinesa (a soma das suas exportações e importações) voltou aos níveis de meados de 2006, ou seja, agora, para retornar ao patamar de agosto de 2008, seria necessário que a soma das exportações e importações chinesas aumentasse nada menos do que 63%. Por outro lado, alguns indicadores qualitativos de atividade sinalizaram uma frugal melhoria do ambiente doméstico nos dois primeiros meses do ano. O PMI chinês aumentou em fevereiro pela terceira vez consecutiva, chegando a 45 pontos e ficando apenas ligeiramente abaixo do nível limítrofe de 50 pontos, acima do qual o indicador é sugestivo de uma expansão da atividade (figura 1).
Figura 1
Estas evidências, aliadas aos efeitos possivelmente ainda não materializados do pacote de estímulo fiscal anunciado no final do ano passado, sustentam a visão das autoridades chinesas de que a meta de crescimento de 8% para este ano ainda é alcançável. No entanto, é difícil imaginar que este nível de crescimento da China seja capaz de evitar o declínio da atividade global, ou, de outra forma, de continuar sustentando a produção industrial mundial nos níveis atuais. Como mostra a figura abaixo, o forte crescimento da atividade industrial global nos últimos 5 anos (de 4% ao ano em média) esteve associado a um crescimento médio anual de 10% da economia chinesa. Anteriormente, quando a China crescia à uma taxa mais modesta, em torno de 8%, o ritmo médio de crescimento da indústria mundial era de 2%, ou a metade do verificado recentemente. E isto em condições relativamente normais nos demais mercados (salvo os choques da bolha dot.com e do 11 de setembro de 2001). Com as persistentes anomalias nos mercados de crédito e a incapacidade de resolver a crise bancária, a economia mundial não exibe a mesma habilidade de responder ao crescimento chinês, mesmo sendo este superior à meta das autoridades, o que parece bastante improvável.
Figura 2
Se por um lado a demanda chinesa estimulou os mercados de matérias-primas, beneficiando os países exportadores de commodities como o Brasil, ela foi também sustentada pelo forte desempenho das economias centrais, fonte principal da demanda externa por produtos chineses e asiáticos. Ou seja, a simbiose que caracterizou o desempenho da China e do mundo nos últimos anos, a despeito do agravamento dos desequilíbrios globais, não mais existe. Sem ela, os arroubos esperançosos com a capacidade da China de tirar o mundo do abismo não podem ser mais do que meramente transitórios.
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