Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010

Monica Baumgarten de Bolle




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Monica Baumgarten de Bolle
Título:

Por Que a Saída da Crise Envolve Um Equilíbrio Pior


09.04.09 6:14 pm
No início da semana, mencionei um artigo recente que trazia algumas comparações interessantes entre a crise da década de 30 e a atual, e concluía que o episódio corrente é pior do que a Grande Depressão (Eichengreen e O´Rourke (2009)). As comparações com o passado são sempre imperfeitas, pois os acontecimentos nunca se dão sobre as mesmas condições de temperatura e pressão. Mas é útil usar a comparação como ponto de partida para ilustrar porque não acredito que ao final desta crise o mundo (e os EUA em particular) será capaz de retornar ao “equilíbrio” que vigorou antes da implosão do sistema financeiro global.

Os gráficos do artigo de Eichengreen e O´Rourke que apresentei em 07/04/2009 mostram que a desorganização macroeconômica causada pela crise financeira atual é mais severa do que a da década de 30. A trajetória dos indicadores de atividade e comércio é igual ou pior do que as observadas durante a Grande Depressão. No entanto, há argumentos ponderáveis sobre a maior capacidade de reação da economia global no atual episódio. Por um lado, os mercados financeiros são mais agéis e sofisticados do que há 80 anos, o que sugere que as medidas de política econômica tenham maior poder de estimular a economia e catalisar a recuperação. Por outro, há uma disposição muito maior de lançar mão dos instrumentos monetários e fiscais (que hoje são virtualmente inseparáveis no caso de alguns países) para impedir o colapso observado nos anos 30. Apesar do termo “recuperação” ser utilizado de forma bastante solta, em geral ele parte da premissa de que em algum momento a economia mundial retornará aos níveis de crescimento e criação de riqueza que vigoraram antes da crise, isto é, à um equilíbrio semelhante. Os “pessimistas” e “otimistas” dividem-se mais quanto ao tempo que isso levará do que sobre o questionamento a respeito da viabilidade do equilíbrio anterior.

Para sustentar a idéia de que o mundo voltará a ser muito semelhante ao que era antes, é preciso acreditar que os mercados serão agentes catalisadores para as ações dos governos tão eficientes quanto foram no passado recente. Isto é, é necessário supor que o metabolismo da economia mundial não mudou fundamentalmente; apenas está temporariamente debilitado. Segundo este raciocínio, a trajetória da atividade mundial deveria ser algo como a Figura 1, abaixo:

Figura 1


Mas e se os mercados deixaram de ser agentes catalisadores igualmente eficientes para as ações dos governos? O metabolismo de um organismo é dito mais eficiente quando tem a capacidade de transformar uma mesma quantidade de nutrientes em maior quantidade de energia. Se o metabolismo da economia global for agora menos eficiente devido à menor capacidade de criar liquidez endogenamente (a “energia”), é difícil imaginar que uma recuperação como a ilustrada na figura acima seja possível. Nestas circunstâncias, é mais provável que a trajetória para a atividade global se pareça mais com a da Figura 2.

Figura 2


Há várias razões para acreditar na reduzida capacidade catalisadora do sistema financeiro internacional: o aumento da aversão ao risco decorrente da crise, a introdução de ambientes regulatórios mais restritivos, a maior segmentação dos mercados, etc.

As Figuras abaixo sugerem, de forma um tanto imperfeita, que de fato a diminuição da capacidade de criação endógena de liquidez poderá comprometer a trajetória de recuperação da economia mundial. O primeiro (Figura 3) mostra a velocidade de circulação do M2 nos EUA (o agregado monetário mais parecido com o “crédito” da economia), definida como a razão entre o PIB nominal e o M2. Ela é uma proxy para a capacidade de geração de liquidez do sistema.

Figura 3


Como se vê, a velocidade do M2 atingiu o pico durante o auge da era Greenspan e caiu abruptamente depois do agravamento da crise em meados de 2008. O comportamento de uma medida para a produtividade do capital nos EUA sugere que a redução permanente da capacidade de geração de crédito e liquidez terá consequências sobre o crescimento (Figura 4). O aumento da velocidade do M2 esteve associado com a mudança de patamar da produtividade do capital, que aumentou substancialmente durante o auge da era Greenspan. Parece, portanto, que uma redução da velocidade do M2 poderá vir acompanhada futuramente de uma queda do patamar da produtividade do capital.

Figura 4


Decorridos 2 anos do início da crise, é importante começar a refletir sobre a cara que o mundo terá nos próximos anos, mesmo que os problemas fundamentais ainda não tenham sido resolvidos Esta foi uma tentativa de mostrar que o que se entende por “recuperação” é bem menos óbvio do que parece à primeira vista. Mais posts e artigos sobre o tema virão.


Comentários postados

aries taurus compatibility
09.09.10 11:11 am
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