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Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010
Monica Baumgarten de Bolle
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Monica Baumgarten de Bolle
Título:
Entre a Suécia e o Japão, talvez o Uruguai...
18.02.09 7:05 pm Enquanto não se chega a uma conclusão sobre o que fazer com os bancos, a lista dos defensores da nacionalização continua a crescer, como demonstrou a recente adesão do “Maestro” Greenspan ao coro formado por Paul Krugman, Nouriel Roubini, Willem Buiter, Mohamed El-Erian, George Soros, entre outros. Um coro eclético, sem dúvida, o que diz muita coisa. Ou quase nada, dependendo da perspectiva.
A ausência de detalhes do Plano de Estabilidade Financeira passados vários dias do seu desastrado anúncio evidencia a monumental dificuldade de resolver a crise financeira, tanto por causa da complexidade do problema, quanto pelos obstáculos políticos que ainda prevalecem. O Secretário do Tesouro tentou, até agora em vão, delinear algo que pudesse ser visto como uma solução intermediária entre o intervencionismo estatal sueco e a letargia “market-friendly” japonesa. Mas apesar dos esforços de uma equipe estelar pontuada por membros com uma vasta experiência na resolução de crises financeiras internacionais, ainda não foi possível apresentar nada mais do que um esboço para o “enérgico” plano de salvamento. Enquanto isso, o tempo e as opções vão se esgotando. Ou já se esgotaram, tendo em vista a avidez com que notórios adversários da intervenção do governo no funcionamento dos mercados estão se manifestando a favor da “solução” estatizante.
Como destacou Ricardo Caballero em um artigo recente (ver “Nationalization without Prices: A Recipe for Disaster”), há essencialmente dois argumentos a favor da nacionalização. O primeiro é que a estratégia impediria a continuação da transferência de recursos dos contribuintes para os banqueiros “irresponsáveis”, e tem um claro apelo popular, tendo em vista a ira da opinião pública com Wall Street. O segundo, mais sóbrio, é que diante da complexidade intransponível do problema, exemplificada pela impossibilidade de precificar os ativos tóxicos nos balanços bancários, não resta outra opção. Como analisamos em um artigo recente para a Carta Econômica Galanto, a estratégia de estatização foi adotada em virtualmente todas as grandes crises bancárias recentes, e em muitos destes casos (se não todos) isso ocorreu em virtude da inexistência de outras formas de restabelecer os mecanismos de crédito.
Diante da inevitabilidade dessa estratégia, muitos dos defensores da estatização temporária do sistema bancário advogam a nacionalização parcial do sistema, isto é, apenas das instituições que estão de fato insolventes. Estabelecer o grau de solvência e viabilidade dos bancos é um dos objetivos do novo plano do Tesouro, através da adoção de um minucioso “stress-testing”. Entretanto, há um risco de que esta iniciativa, uma vez implementada, seja percebida como arbitrária, pois a categorização das instituições em solvente/insolvente, viável/inviável, depende da precificação dos ativos problemáticos, mais uma vez. Com isso, Caballero argumenta que, a não ser que os EUA estatizassem todas as instituições financeiras de uma vez, a estratégia de nacionalização parcial desestabilizaria ainda mais os mercados, pois aumentaria os temores de que aqueles que ficassem de fora fossem estatizados futuramente. É. Talvez.
Contudo, a experiência de outros países mostra que a determinação de solvência/viabilidade é sempre um tanto arbitrária. O que importa para os mercados e para a restauração da confiança é a identificação das instituições com os maiores problemas e o estabelecimento de um cordão de isolamento para evitar a continuação da incerteza paralisante. A crise bancária Uruguaia de 2001/02, na qual trabalhei quando estava no FMI, foi solucionada desta forma – com uma estatização parcial temporária e a adoção de um veículo para absorver e gerenciar os ativos ruins dos bancos. Os uruguaios não foram tão rápidos e decisivos quanto os suecos na resolução da sua crise, mas certamente foram infinitamente mais ágeis e determinados do que os japoneses...
A incerteza em relação às instituições que ficarem de fora que Caballero destaca com problemática pode ser resolvida com o uso do “bad bank”, ou do veículo de absorção de ativos podres, que deve sempre complementar as estratégias de nacionalização temporária. Se necessário, estas instituições, agora com o carimbo de solventes e viáveis, podem ser recapitalizadas com uma combinação de recursos públicos e privados.
Entretanto, os EUA não são o Uruguai ou a Suécia, economias que gozam do privilégio (nestas horas) de serem suficientemente pequenas, tendo, portanto, sistemas financeiros com um grau de sofisticação compatível com estratégias de nacionalização parcial. A complexidade das interconexões do sistema financeiro americano reveladas nesta crise aumentam os riscos de que a diluição de um importante acionista com a intervenção do Estado, por exemplo, tenha consequências desastrosas e imprevisíveis. Este é o outro argumento de Caballero contrário à estatização e com o qual é difícil discordar.
Portanto, a estatização parcial temporária como única opção para evitar a perpetuação de uma dinâmica perversa à la Japão, razão para o crescente coro em sua defesa, não é sem riscos. Mas, certamente, é melhor do que nada.
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